A luta para conquistar a casa dos sonhos
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segunda-feira, 20 de março de 2006
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Aos oito meses de gravidez, a dona-de-casa Rosimeire Francisco da Silva, 31 anos, não se cansa de erguer as mãos para o céu e agradecer. Há três meses morando na nova casa da família, no Jardim Tropical (Zona Norte), ela tenta ignorar as paredes sem reboco, o chão sem ladrilhos e a falta de calçada e de muros. Como milhares de brasileiros, ela e o marido recorreram a uma prática cada vez mais comum: a ocupação de residências ainda em construção. No loteamento que a família Silva escolheu para morar são vários os exemplos.
''Morei durante 11 anos com meu marido e três filhos em um cômodo, no Jardim Nossa Senhora da Paz (Zona Oeste). Aqui eu estou no céu, tem hora que eu me deito, fico pensando e custo a acreditar. Tenho fé que um dia a gente acaba de construir.'' O imóvel, erguido pelo marido com a ajuda de amigos e recursos obtidos em um acerto trabalhista, tem três quartos, cozinha, sala, banheiro e lavanderia. ''Tem gente que acha grande, mas é no tamanho certo para uma família viver'', argumenta Rosimeire, revelando que as próximas providências serão colocar piso nos cômodos internos e pintura das paredes. ''É que tem muito pó, e o nenê está para nascer.''
Conformada, ela sabe que com o salário de menos de R$ 500,00 do marido que trabalha como gari não vai ser fácil terminar a casa. ''Acho que vamos levar uns quatro, cinco anos. Não tem outro jeito. Já pagamos dois anos de prestação do terreno, mas tem mais seis anos pela frente. São R$ 230,00 por mês'', informa. Para levantar as paredes da residência e deixá-la nas condições mínimas de habitação, foram seis meses de trabalho duro.
O mesmo sonho de ter uma casa nova está sendo embalado pelo casal Inês e Kazoshide Suguimoto, que mora há vários anos em um sobrado inacabado na esquina da Avenida Higienópolis com Rua Montevidéu (Zona Sul). Ela diz que já se vão quase 10 anos, ele acha que são uns ''três ou quatro''. A família morava há 18 anos em uma pequena casa, quando achou que era hora de ter um pouco mais de conforto.
Foi erguido então um sobrado de aproximadamente 400 metros quadrados, que o casal acreditava ser mais apropriado para receber os muitos netos que deveriam vir com os anos. Mas o time de herdeiros ''bagunçando a casa'', como idealizou dona Inês, não veio, da mesma forma que não foi suficiente o dinheiro para fazer o acabamento do imóvel.
''Está difícil para terminar, não sobra dinheiro'', justifica Suguimoto, que já foi dono de uma loja de bicicletas. Ele diz não ter idéia de quanto precisa para concluir a construção, mas afirma que só com pedreiro já gastou cerca de R$ 40 mil. ''Agora acho que falta pouco, por dentro está quase pronta.'' Segundo dona Inês, a falta de revestimento nas paredes já está começando a gerar problemas. ''Quando chove, aparecem uns vazamentos na sacada'', revela.
No Conjunto João Paz (Zona Norte), o pedreiro aposentado Manoel Barbosa também perdeu a conta de quanto gastou para deixar a casa original, do tipo ''cachorro sentado'', no formato que tem hoje. Durante 25 anos, ele investiu quase tudo o que ganhou em material de construção, e usou seus finais de semana para construir paredes, muros, assentar pisos, dar uma cara nova à casinha de 'uma água'. Hoje o imóvel tem três quartos, duas salas, dois banheiros e área de serviço. ''Tudo o que eu queria, fiz na casa'', revela o pedreiro de 70 anos.
Depois de tanto esforço, ele confessa que agora anda querendo se mudar. ''Enjoei daqui. Quero vender'', diz, sem dar mais explicações. Logo depois, porém, deixa escapar um dos motivos do desânimo: ''Não tenho mais dinheiro, não posso fazer mais nada na casa.''


