A luta contra o sono
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terça-feira, 06 de outubro de 2015
Viviani Costa<br>Reportagem Local 
Às 5h30 da madrugada, os estudantes Filipe Serrano e Matheus Fermino começam a luta diária contra o sono. A meta é chegar ao colégio pouco antes das 7h30 para acompanhar com atenção os conteúdos repassados pelos professores do 2º ano do Ensino Médio. Aos 16 anos, Filipe gosta de acordar cedo, mas leva uma pequena garrafa de café para ajudar na concentração. "[Esses dias] Tive prova de matemática na primeira aula e estava garoando... Foi difícil. Muitos amigos reclamam de sono e eu mesmo não durmo antes das 23 horas", admite. Matheus, também com 16 anos, mantém uma rotina agitada. "Depois do colégio, faço curso à tarde e academia à noite. Acabo dormindo em uma ou duas aulas pela manhã", confessa, ainda sonolento.
O que é visto por muitos adultos apenas como "preguiça de adolescente" tem explicação científica. "O problema principal está na liberação da melatonina, hormônio sincronizador do sono. Quando escurece, ele começa a ser liberado no organismo. Na adolescência, esse processo se retarda um pouco mais, de duas a quatro horas e, normalmente, o adolescente acaba sentindo sono mais tarde e dormindo ainda mais tarde", destacou o hebiatra pós-graduado em neuropsicologia Renato Moriya.
Além do cansaço durante o dia em razão das noites mal dormidas, as poucas horas de sono comprometem o aprendizado. "O sono perdido não se recupera e isso repercute na memorização, já que, durante o sono, é feita a gravação das informações. Isso acaba interferindo também na questão orgânica porque a falta de sono pode levar à obesidade e pode desencadear a diabetes, por exemplo, para quem já possui predisposição à doença", alertou.
Com base em estudos sobre alterações hormonais e fatores biológicos comuns durante a adolescência, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos recomendou o atraso no horário de início das aulas para 8h30. Hoje, o horário de início das aulas é por volta das 7h30. A medida busca otimizar o aprendizado e é vista como uma alternativa possível para melhorar o aproveitamento dos estudantes também no Brasil. "O mundo corporativo já percebeu que a flexibilização do horário de trabalho aumenta a produtividade. Se a pessoa chega às 10 horas e produz, por que ela deve ser obrigada a chegar às 8 horas? Fala-se tanto atualmente em flexibilização de currículo, de conteúdos escolares, vamos flexibilizar os horários também. Por que não?", ressaltou o doutor em psicologia e neurociência, Fernando Louzada, autor do livro "O sono na sala de aula".
Enquanto os bebês dormem, aproximadamente, 20 das 24 horas do dia, as crianças, em geral, acordam cedo, mas dormem de 12 a 15 horas, considerando as sonecas distribuídas durante o dia. Entre 10 e 20 anos de idade, são necessárias, no mínimo, 9 horas de sono por noite. "Quem tem facilidade para acordar cedo não entende o que é uma pessoa mais vespertina. Assim como quem nunca teve depressão não entende o que é estar deprimido. Quem nunca teve depressão fala: é só sair da cama. É só ter força de vontade. Mas não é assim. O que falta é uma compreensão dessas diferenças e olhar para esse fenômeno de uma maneira um pouco mais científica. Quando a gente vai além do senso comum, a gente vê que a dificuldade existe", defende.
Escolas dos Estados Unidos, da Inglaterra e de Israel já adotaram a medida em algumas unidades. No entanto, entre os principais desafios para a discussão do tema no Brasil está a mudança cultural. "Deus ajuda quem cedo madruga. Isso está muito arraigado por aqui. Você tem políticos com o lema: Eu acordo às 4 horas da manhã para trabalhar pela cidade. Então as pessoas falam: Nossa, ele é trabalhador. A ciência mostrou que não é bem assim. Depende do período em que a pessoa é mais produtiva", lembra Louzada, que é professor na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Independentemente das pesquisas, quem já passou pela adolescência agora respira aliviado. É o caso da universitária Letícia Luriko, de 18 anos. "Eu entrava às 7h15 no colégio particular. Acordava às 6h30 e nem tomava café direito para chegar no horário. Na faculdade, as aulas começam às 8h20. Agora dá tempo tranquilo e a gente aproveita melhor os conteúdos", comemora. Os estudantes Filipe e Matheus, apresentados no início da reportagem, concordam com o atraso no horário de início das aulas, mas ainda preferem estudar durante a manhã. "Aproveito melhor o dia", disse Filipe. "O bom é que quem estuda pela manhã tem mais tempo livre depois", destaca Matheus. De acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Educação (Seed), a mudança no horário de início das aulas não está em discussão por aqui. Em grande parte das escolas, as atividades começam por volta das 7h15.


