A adaptação a uma língua estrangeira pode ser um processo demorado, principalmente quando a língua materna é de origem muito distante da língua que se quer aprender. E estrangeiros que estão aprendendo a língua portuguesa não são um caso à parte. Laura Pontinen veio por intercâmbio conhecer o Brasil, e para poder conversar com os colegas brasileiros, a finlandesa precisou aprender o português. Quando ainda não sabia falar muito bem a nossa língua, diz ela, situações embaraçosas ao tentar se comunicar não faltavam.
''Quando eu saía com uma amiga e eu não queria falar português e ela não queria falar o inglês, ficava aquela situação. E aí, ninguém falava nada'', ri. A língua do seu país de origem, o finlandês, não tem muito em comum com o nosso idioma. O inglês, sua segunda língua, também é diferente do português em muitos aspectos.
A amiga canadense de Laura, Samantha Durnin, também intercambista, conta que foi uma vez a uma confeitaria com outra amiga estrangeira. ''Minha amiga estava com vergonha de falar português. Então eu fui fazer o pedido para ela. Depois, o garçom veio trazendo algo totalmente diferente do que eu tinha pedido'', diverte-se.
''Tive muita dificuldade ao aprender o português. Principalmente os verbos. No português tem verbo no futuro, no passado, no mais passado...'', brinca um inglês que veio ao Brasil depois que se casou com uma brasileira. Simon Buxton teve que aprender a língua portuguesa até mesmo para poder conversar melhor com a esposa e com os parentes dela, que não falam muito bem o inglês. Na língua inglesa, a conjugação dos verbos não se desdobra em pretérito perfeito, imperfeito, mais-que-perfeito etc., como acontece com o português. A pronúncia é outro ponto em que o inglês sentiu dificuldades na língua portuguesa: ''Até hoje eu não sei falar direito 'cabeleireiro'''.
Já o iraniano Mohammad Shadnik diz que a diferenciação que fazemos nas palavras para o gênero feminino e para o gênero masculino foi uma das maiores dificuldades na hora de aprender o português. Mohammad, que veio ao Brasil ao encontro do pai, há um ano, declara que ainda sofre com essa característica da língua portuguesa: ''Na minha língua, o farsi, as palavras são iguais para os dois gêneros''.
Os vários sotaques encontrados em território brasileiro também confundem quem vem de fora. ''Fica mais difícil entender o que um brasileiro está falando quando ele tem um sotaque diferente'', conta o também iraniano Alireza Ourazar, que precisa de mais tempo para responder quando conversa com um amigo carioca.

Trava-línguas -
''O que notamos nas aulas de português para estrangeiros é que cada grupo linguístico possui dificuldades específicas'', afirma a professora e coordenadora de um curso que oferece aulas de português para estrangeiros na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Viviane Bagio Furtoso. Um exemplo é que os japoneses têm grande dificuldade de pronunciar palavras com o som de ''ão'', que acaba substituído pelo som de ''on'', resultando em ''Japon'', por exemplo.
Outro problema comum na pronúncia do português pelos japoneses é o que a professora chama de ''rotacismo'', ou seja, a troca do som da letra ''l'' pelo da letra ''r'' como em ''praca'' ou ''bicicreta''. Já com os chineses, acontece o contrário: o som do ''r'' é trocado pelo do ''l'', resultando em ''lelógio'', por exemplo. Essas confusões ocorrem por causa da ausência de sonoridades específicas em cada língua.
Com os falantes da língua inglesa são comuns problemas com o emprego correto do artigo, porque para eles, existe apenas um artigo que é usado tanto para palavras no feminino quanto no masculino, o ''the''. ''Então eles acabam fazendo algumas generalizações, como a de que toda palavra terminada em 'a' é feminina, então leva o artigo 'a' no começo. Aí eles falam, por exemplo, 'a telefonema''', diz a professora.
Ainda em relação à língua inglesa podem ocorrer dificuldades em saber diferenciar quando se deve usar o verbo ''ser'' e quando se deve usar o verbo ''estar'', uma vez que, no inglês, para ambos os casos, se usa um verbo só, o ''to be''. Já no espanhol, explica Viviane, essa confusão não existe, pois, assim como no português, há uma palavra específica para ''ser'' e outra para ''estar''. Por isso os falantes de espanhol, e aqueles que já sabem falar espanhol, têm mais facilidade em aprender o português: a língua espanhola tem muitos pontos em comum com o nosso idioma.
Isso acontece porque ambas as línguas se originam do latim. ''Como as duas línguas evoluíram a partir do latim, mesmo apresentando diferenças, elas podem ser mais facilmente contrastadas para facilitar a aprendizagem da língua portuguesa'', esclarece a professora.

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