A legião dos sem-dinheiro faz passe virar moeda
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 1997
Apolo Theodoro 
Paulo WolfgangCâmbioO cartaz do vendedor não deixa dúvidas: perto do Terminal Urbano, o passe é usado como papel-moedaSó não dá pra dizer que tem moeda nova na praça porque a transação, como se diz por aí, é mais velha do que andar pra frente. Mas para saber que o passe de ônibus já adquiriu tal status é só dar uma corridinha pelo centro de Londrina: não tem ambulante, camelô ou comerciante que não o aceite como moeda.
E se tal desvio virou novamente notícia de jornal é porque, de uns tempos para cá, as transações com passes de ônibus têm aumentado muito. Principalmente nos finais de mês, quando os assalariados, quase todo mundo com a corda no pescoço, trocam dois passes, que valem R$ 1,20, por um cachorro-quente de R$ 1,00. A diferença vai para o bolso daqueles que, depois, adquirem os passes dos ambulantes. Aliás, não só entre os vendedores de cachorro-quente, 50 centavos é o preço pago na maioria das transações.
Porém, embora seja a principal causa, nem só para matar a fome, como seria lógico supor, o passe é desviado da sua função original. Caldo de cana, algodão doce, alho, xerox, cigarro, fruta, sorvete e - só faltava essa - até no jogo de bicho ele já dá o ar da graça. Não deixa de ser um azarão para o real que, pelo jeito, não é tão majestoso como apregoam.
Às vezes o cara não tem nem um real pra comer um lanche, coitado, então vendo pelo passe e o cara vai embora a pé, diz o vendedor de cachorro-quente Antonio Liberino Campos.
O passe está virando dinheiro e se eu não pegar não vendo nada. Além disso, o nego vai embora a pé, mas vai de barriga cheia e ainda faz um exercício que é bom pra saúde, brinca o também vendedor de cachorro-quente João Gonçalves da Silva, lembrando que a coisa está tão feia que se o nego não se virar ou parte pro roubo ou vai pros sem-terra. Para ele, quem diz que a coisa está boa não sabe o que está falando. Ele argumenta: Como é que alguém vai ter dinheiro no bolso com um salário desse que tá aí?
Na garapeira, Neusa de Souza não esconde que vende de 10 a 15 caldos de cana por dia a troco do passe. Nunca recusei. A gente usa e, além disso, sei que o real está difícil, observa Neusa, acrescentando que acha certo o procedimento, já que é melhor usar o passe do que roubar.
Como aposentado, Aprígio Andrade anda de graça no transporte coletivo. Já como cambista do jogo de bicho, andou pegando alguns passes de ônibus de apostadores de bolsos vazios, mas cheios de fé no palpite. Às vezes aparece algum amigo sem dinheiro querendo apostar, aí eu pego o passe e depois dou para a minha filha, conta Aprígio. Ele, no entanto, diz condenar tal prática: Se foi criado pra pessoa pegar o ônibus pra ir trabalhar, tinha que ser usado pra isso.
Se a gente não pegar, outro pega, resume outro vendedor de cachorro-quente que não quis se identificar, revelando ainda que vende os passes para os cobradores do Lopes que passam por aqui e pagam pelos mesmos 50 centavos.
Numa livraria, a funcionária do setor de xerox informa que vem muita gente aqui perguntando se aceitamos passe de ônibus. Já o vendedor de alho José Salviano Furtado e a vendedora de algodão-doce Maria Aparecida da Silva também vivem fazendo negócio com passes. Como os dois andam de ônibus, a passagem acaba ficando 10 centavos mais barata.
Próximo ao Terminal Urbano, uma placa na porta de um chalé indica que ali o comércio de passes corre solto. E corre mesmo: no exato momento em que a reportagem da Folha chegava ao local, um cidadão de camisa azul, semelhante à usada pelos cobradores e funcionários da TCGL, saía com um pacotinho de passes na mão. Não houve tempo de falar com ele. Saiu rapidamente.
Já o proprietário do chalé que, além de fazer jogo de bicho, também vende suco de laranja, disse que pega uns 15 ou 20 passes por dia, mas só na venda de suco. Ele conta que paga 50 centavos e vende por 55 - Ganho 5 centavos e a pessoa compra mais barato - revelando também que entre seus compradores estão cobradores e motoristas de ônibus.
Na lanchonete que fica na parte de baixo do terminal, o proprietário Paulo Roberto Bueno revela que diariamente recebe cerca de 50 passes. Depois, os passes são usadospelos funcionários, como vale-transporte.
Outro que não esconde a destinação dos passes que recebe é o proprietário da lanchonete Comilão, no avenida Rio de Janeiro. Eu compro dos vendedores de cachorro-quente por 50 centavos e dou pro meu pessoal usar. É melhor comprar dessas pessoas que no Terminal, onde custa 60 centavos. Mas, como moeda aqui na lanchonete, nunca peguei. Mas estou pensando em pegar.
No Terminal, indagado se, realmente, os cobradores comercializam passes, o vendedor de passagens Reginaldo Lima, funcionário da TCGL, foi curto e grosso: Você acha que a gente vai se sujar por causa de passe?
Entre os usuários, só santinhos. Abordados, respondiam que só usam o passe para o devido fim. Mas o jovem André Silva, 19 anos, desempregado, não só confirmou que está cansado de usar a nova moeda como revelou que, na sua casa, o passe faz parte do orçamento doméstico. Ele diz que, às vezes, pede uma grana pro pai, mas o velho não tem. Aí ele me dá uns 4 passes e eu tomo um refrigerante e como alguma coisa, revela André, garantindo que a maioria usa os passes pra outras coisas e depois anda a pé. André proclama com certo ar de triunfo: Agora, além do real, temos o passe como moeda. E eu acho certo porque ele já foi pago.


