A insegurança nas portas das escolas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Edson Pereira Filho,Luciano Augusto eWilhan Santin<BR>Reportagem Local 
Em menos de uma semana, três crimes chocantes no Paraná: meninas, todas com menos de 10 anos, foram raptadas e mortas, de forma brutal, em regiões diferentes do Estado. Em pelo menos dois desses casos o de Rachel Maria Lobo de Oliveira Genofre, 9 anos, cujo corpo foi encontrado, no dia 5, dentro de uma mala na Rodoferroviária de Curitiba; e o de Alessandra Betin, 8, morta em Castro (41 km a norte de Ponta Grossa) e encontrada no dia 10, em um matagal há indícios de que o assassino tenha conquistado a confiança da criança antes de cometer o crime.
No entanto, mesmo depois das notícias dessas mortes, ainda é fácil abordar crianças nos portões das escolas de Londrina. Jornalistas da FOLHA foram esta semana a três regiões da cidade e conversaram com estudantes que aguardavam o início das aulas. Inocentemente, os pequenos contaram aos adultos desconhecidos detalhes da rotina, do caminho que fazem todos os dias e de como acessam a Internet.
Na Zona Oeste, por volta das 13 horas, já era grande o volume de alunos, com idade entre seis e dez anos, aguardando a abertura dos portões de uma escola municipal, o que só aconteceu 15 minutos depois. Entre as crianças que conversaram com o jornalista, chamou a atenção o caso de uma menina, de oito anos. Ela contou que mora a duas quadras da escola e vai para a aula a pé e sozinha. Mesmo depois que os portões são abertos, a garota prefere aguardar a hora de ir para a sala de aula na calçada da escola.
Rapidamente, o repórter conquistou a confiança da menina e soube por que ela reluta em entrar. Eu não gosto de estudar. Por mim eu não entrava. Preferia ficar em casa ou ir dar uma volta, comentou a estudante, que não negou nenhuma informação ao adulto.
Celular como desculpa
Está calor, né?. Esse simples puxar de conversa com uma menina de 10 anos foi a senha para o início de uma conversa em frente a uma escola municipal da Zona Leste, onde um repórter permaneceu por mais de uma hora. A garota, ao som de rap em seu celular, consentiu, respondendo que poderia chover. Quebrado o gelo, o jornalista resolveu usar uma artimanha para se aproximar, dizendo que não sabia mexer no próprio celular. Extremamente solícita, ela encostou ao lado do jornalista e pegou o celular do mesmo para demonstrar.
A conversa se estendeu, a estudante contou que estava esperando uma colega sair da escola. O repórter ofereceu chicletes, a menina aceitou, sem nenhuma cerimônia.
Mais audacioso, o jornalista ofereceu guaraná, num bar da esquina. A menina não aceitou, dizendo que não poderia sair dali, por estar esperando uma colega.
Durante o período em que a reportagem permaneceu nas cercanias da escola, nenhuma viatura policial apareceu. Em frente ao estabelecimento, mães e alunos estavam do lado de fora esperando o abrir dos portões, o que só acontece depois das 13h.
Já sei andar sozinho
Numa outra escola, na Zona Sul, a FOLHA observou crianças de sete anos chegando sozinhas. Com extrema facilidade, foi possível abordar muitas delas e saber nome, idade e a rotina durante e após o horário escolar.
Com uma bola de futebol nos braços, um menino de 10 anos revelou em poucos minutos de conversa quais os locais que costumava freqüentar, se tinha ou não um adulto responsável, se ia e voltava desacompanhado. Ao ser questionado se não tinha medo, foi taxativo: Não, já sei andar sozinho.
Com as meninas não foi diferente. Uma estudante de 11 anos que vem e volta todos os dias sozinha revelou inclusive as comunidades virtuais que costuma acessar. Durante cerca de meia hora em que a reportagem permaneceu no local, nenhum adulto se incomodou com a presença de uma pessoa estranha em frente à escola. Viaturas policiais também não estiveram no início da tarde no endereço. Enquanto as aulas não começavam, muitos estudantes brincavam tranqüilamente nos arredores e numa praça em frente.


