A infância perdida no semáforo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
No mês passado, o grande número de crianças pedindo esmolas pelas ruas foi um dos motivos que levaram a juíza Beatriz Fruet de Moraes, de Cambará (Norte), a editar uma portaria proibindo a presença de crianças e adolescentes em estabelecimentos comerciais após horários que vão das 20 horas à zero hora, dependendo do tipo de estabelecimento e da idade dos menores. Outros municípios paranaenses também estudam a possibilidade de adotar um ''toque de recolher'' como forma de tirar os menores das ruas.
Em Londrina, um projeto de lei com o mesmo objetivo, do vereador Paulo Arildo (PSDB), tramita na Câmara e deve voltar à pauta em agosto. No entanto, o problema de menores perambulando pelas ruas da cidade vai além do período noturno. Com ''sol alto'', vários meninos e meninas tentam a cada semáforo vermelho garantir uns trocados. Em alguns casos, o dinheiro serve para ajudar no sustento de casa, em outros é utilizado para comprar drogas, principalmente o crack.
É o caso de Fábio (nome fictício), 13 anos. Ele não tem um ponto fixo. Diversifica os semáforos que utiliza. No início da semana, por volta das 17 horas, pedia no cruzamento da Avenida Dez de Dezembro com a Rua Tremembés, na Vila Casoni (Zona Leste). Arredio, respondeu a todas as perguntas do repórter até perceber que o jornalista não lhe daria dinheiro algum. ''Não sou de jogar conversa fora, não, senhor. Se não vai me dar nada, vai saindo'', esbravejou. Mas você usa crack, Fábio? ''Uso sim''.
Outro que pede para sustentar o vício é Pedro (nome fictício), que tem 14 anos, mas é tão franzino que aparenta ter 10. De cabelos loiros, olhos azuis e jeito frágil, diz que consegue em torno de R$ 30 a cada dia de mendicância. ''Às vezes tem gente que dá R$ 50, aí fico dois dias sem vir'', conta o garoto encontrado pela reportagem às 16 horas, no cruzamento das Avenidas Tiradentes e Maringá (Zona Oeste). ''Antes eu ficava na Dez de Dezembro, mas lá tá muito concorrido'', completa.
Ele relata que tem mãe e dois irmãos e que pede nas ruas há quatro anos para ''ajudar em casa''. Diz que abandonou os estudos na quarta série e jura que não usa drogas. Porém, os educadores sociais do Centro de Referência Especializado de Assistência Social I (Creas) / Sinal Verde o desmentem e confirmam que o menino também usa crack.
No dia seguinte, um pouco mais tarde, às 18 horas, no cruzamento das Ruas Goiás com Pernambuco (Região Central), mais uma criança pedindo, desta vez um indiozinho de seis anos, encolhido de frio. A tia dele, de 20 anos, admite que o deixa pedindo porque é mais fácil criança ganhar dinheiro do que um adulto. Oriundos da Reserva São Jerônimo, em São Jerônimo da Serra (Norte), os dois estavam em Londrina para vender balaios. ''Ficou frio de repente e não trouxemos roupas. Queremos ir para Arapongas (37 km a Oeste de Londrina) porque lá vende mais balaio, mas antes temos que arrumar dinheiro para a passagem'', explicou Simone.
Na última segunda-feira, às 8 horas, mais um caso de adolescente no semáforo. Porém, ao contrário dos outros, João (nome fictício), 12 anos, não pedia, vendia balas, no cruzamento da Avenida Juscelino Kubistcheck com Rua João Cândido (região central). Morador de um bairo da Zona Norte, contou que está aproveitando as férias escolares para ganhar dinheiro. ''Meu pai tá sem emprego, mas quando as aulas começarem de novo eu volto para a escola'', garantiu.


