A hora da comilança
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terça-feira, 09 de julho de 2002
Luka Morais<br>Reportagem Local 
O pessoal do supermercado estava ficando desconfiado. Todo santo dia o moreno de cavanhaque, com pinta de pagodeiro, e o rapaz clarinho, de óculos, com ares de Ivan Lins, chegavam no estabelecimento e seguiam direto até a padaria. Três sacos cheios de pão francês e aquele punhadão de mortadela.
As moças do caixa já estavam se animando com as visitas cada vez mais frequentes dos consumidores de pão com mortadela e refrigerante. ''Vocês trabalham onde? Quem come tanta mortadela assim?'', quis saber a lourinha do caixa.
Os rapazes, já acostumados com a comilança no local de trabalho, inventaram uma história para despistar a curiosidade da moça. Não queriam revelar que os vorazes consumidores eram profissionais que costumavam, no exercício da profissão, alertar as pessoas sobre os perigos da má-alimentação. Entre eles, alguns faziam ares de gente fresca e brincavam perguntando ''o que é isso que vocês colocam no meio do pão?''
Tempos depois, tomando uma cerveja no boteco, um dos ''responsáveis'' pela compra do lanche da tarde comentou com o colega a ''farra'' que acontecia no trabalho. Comer coletivamente, lembraram, passou a ser uma necessidade dos profissionais que, no início, promoviam mensalmente festas para os aniversariantes. Depois, quando não havia data a ser comemorada, inventavam motivo para as festas.
Com a grana curta, devido à crise da economia e consequente arrocho dos salários, as festas ao contrário do que se possa imaginar foram se tornando ainda mais frequentes. Sempre na base do ''rachide''. Muitos nem questionavam, mas outros entendiam aquela forma estranha de compensar o período difícil que o grupo passava com os bolsos vazios.
Até que os mais festeiros decidiram fazer a festa do nada. Nada a se comemorar. Cada um trouxe um pratinho de casa para a comilança grupal. A equipe animada conseguia melhorar o ambiente de trabalho. Enquanto dividia os salgados e compartilhava os doces, era possível ouvir a célebre frase: ''Aqui a gente ganha pouco, mas se diverte muito''. O final da história, que ainda não acabou, ninguém sabe. Mas a continuar no mesmo ritmo até poderá ser: ''E foram alegres e obesos para sempre''.


