A história e as arenas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de novembro de 2002
Benedito Teles<br> Equipe da Folha 
Em Joaquim Távora, um herói sem nome arrisca a sorte numa arena. A imagem nos remete a história antiga. Alex é um dos heróis que não temem o destino e se bate diariamente pela chance de atingir a vitória. De acordo com seus companheiros sem medo, apenas com cisma, sobem em touros ou cavalos para por, pelo menos, alguns segundos deixarem de ser coadjuvantes. Em até oito segundos podem atingir o estrelato ou, apenas, decorarem o espetáculo.
Atualmente, a arena não comporta leões e tigres, agora só há espaço para touros e cavalos. Mas, como em Roma, ainda, temos gladiadores, plebe e dor neste espetáculo que fascina e, entretém a massa. As armas foram substituídas por celas e não há imperador, pelo menos, não com esse nome. O gladiador contemporâneo, ou melhor, peão de rodeio tem apetrechos que lembram um combate mortal, mas, ao invés de homens, se lançam com sua parafernália contra animais.
Os gladiadores sertanejos, antes do início do confronto, se preparam com chapéus, botas, esporas e proteções para a boca, para o tórax e para as pernas. A indumentária e o olhar do peão assustam. A plebe continua nas arquibancadas. A turba, apesar de tantos séculos, insiste em ver os embates e homenagear seus heróis. Atualmente, não decidem a sorte dos gladiadores com o polegar. Nos tempos modernos, a plebe perdeu prerrogativas e um juiz decide quem será o herói da contenda.
O gesto dos polegares levantados ou abaixados foi substituído por um membro espalmado. Os heróis estão acostumados a receber aplausos ao invés de polegares eriçados. Porém, apesar dos tempos, o prêmio continua sendo uma coroa e a permissão para viver. A vida agora é a fama, a glória e a fortuna. A chance de obter reconhecimento e dinheiro. A morte é o ostracismo, o anonimato e a miséria.
Consequência da aceleração de nosso século os confrontos deixaram de durar horas intermináveis e agora duram 8 segundos. Os heróis conseguem ficar oito segundos. Os mortais não superam o número e se mantém sobre os animais tempos que variam de um segundo a quatro ou cinco. As pernas entreabertas, o olhar convicto e a testa franzida denunciavam que Alex orava à Nossa Senhora Aparecida pedindo proteção antes de entrar na arena. Finalmente, a expressão 'Ave César' foi substituída por 'Segura Peão'. Enfim, Alex toma seu lugar no brete e ao primeiro sinal do locutor combate em uma arena circular.
O público, independente do teor do espetáculo, continua alucinado e, assim como, em tempos antigos delira com a entrada dos guerreiros sertanejos. Alex treina semanalmente e deixou de estudar para trabalhar como pedreiro. O peão tentará como seus antecessores, durante algum tempo, conquistar seu espaço, caso contrário, deixará à arena derrotado. Alex caiu no primeiro segundo e, em seguida, foi hospitalizado. A platéia consumiu mais um herói, ao mesmo tempo em que, atenta ignorava a história e perpetuava uma tradição.


