A história de quem nasceu de novo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Setembro de 2007. A reportagem da FOLHA chega a Porecatu (Norte) para entrevistar um senhor que aguarda na fila de espera por um transplante de coração. Ele é o tratorista Marinho Alves de Souza, 43 anos. Triste, porém cheio de esperança, ele recebe os jornalistas para narrar sua sina. O coração dilatado por conta de uma hipertensão arterial já não dá conta de bombear o sangue para o seu corpo. Ele sente cansaço. Mal consegue andar. Tem medo da morte. Está muito acima do peso por causa do grande acúmulo de líquidos devido ao mal funcionamento do coração. Um cilindro de oxigênio emprestado pelo hospital da cidade o ajuda a driblar a crônica falta de ar.
Fevereiro de 2008. A reportagem da FOLHA chega ao consultório do cirurgião cardíaco Arnaldo Okino para encontrar o mais novo transplantado cardíaco de Londrina. É ele mesmo: Marinho Alves de Souza. A esperança venceu a batalha. Ele recebeu um coração em dezembro de 2007 e acaba de ser liberado pelos médicos para conceder entrevistas. Agora, ele consegue fazer longas caminhadas, não sente falta de ar, tem pressão arterial normal, está 30 quilos mais magro e até parece alguns anos mais jovem. No rosto, o sorriso. Nos olhos, a emoção de quem ganhou uma segunda chance de continuar vivendo.
Marinho estava cadastrado na fila de espera da Central de Transplantes desde 2006. Naquele ano, nenhum transplante de coração foi realizado em Londrina. Porém, em 2007 os números melhoraram, mas estão longes de ser os ideais. Dois transplantes cardíacos foram realizados na cidade. Entre eles, o de Marinho.
Acompanhado da esposa Lúcia dos Santos Souza, o seu ''porto seguro'' durante todo o tempo de angústia, o tratorista não consegue segurar as lágrimas quando fala de sua história feliz. A mulher também o acompanha na emoção. O casal chora. ''Foi no dia 8 de dezembro de 2007, às 16 horas. Eu estava deitado quando o telefone tocou. Era o doutor Arnaldo (Okino) dizendo que tinha um coração para mim. Nem acreditei. Imediatamente, me dirigi a Londrina. O único problema é que o coração demorou para chegar até a Santa Casa (de Londrina, único hospital da região credenciado a fazer transplantes cardíacos), pois estava chovendo e o órgão vinha de outra cidade, de avião. Os médicos não podem me dizer ao certo de onde veio. Eles dizem que veio de Deus. Então, eu aceito isso. Veio de Deus'', relata.
No melhor estilo ''esposa coruja'', Lúcia conta que está cuidando do maridão, controlando os horários dos remédios contra rejeição e evitando que ele cometa excessos. ''Imagina, outro dia ele queria sair andando de bicicleta. Eu não deixei. Ainda não é a hora'', conta. No entanto, ela confessa que nos momentos de espera pela cirurgia, que demorava a chegar, faltou-lhe a esperança. ''Eu chegava do serviço e via meu marido deitado, sem forças, inchado. Eu já tinha perdido a esperança. Ele não estaria mais aqui se o coração não tivesse chegado. Estes médicos são verdadeiros anjos'', ressalta Lúcia.
O cirurgião cardíaco Arnaldo Okino, diz que o procedimento de transplante de coração é realizado por uma grande equipe. Só cirurgiões foram seis. Além do próprio Okino, participaram os médicos Kengo Baba, Gualter Junior, Márcio Henrique Cardoso, Rafael Santoro e Edgar Vidotti. Sobre o estado de saúde de Marinho, Okino é enfático: ''Ele está ótimo.''
Terminada a consulta, pegando o caminho de volta para a cidade onde moram, Marinho e Lúcia levam no semblante a felicidade. Pais de três filhos (Anderson, 20, Andressa, 15, e André Luiz, 7), eles sabem que têm um grande motivo para se declararem felizes.


