'A gente prefere esquecer e retomar a nossa vida'
Tomazina - Cinco dias depois da enchente, assistentes sociais da Prefeitura de Tomazina se surpreenderam com a sensibilidade de alguém que se mantém anônimo até hoje: uma pequena caixa com enfeites em miniatura de porcelana e um bilhete escrito a mão num guardanapo de papel ''Que Deus os abençoe e lhes dê força neste momento difícil''.
A ação desse doador ou doadora que resolveu não se identificar emocionou os trabalhadores do Departamento de Trabalho e Bem Estar Social, que desde o dia 30 de janeiro não têm parado de atuar no levantamento de desabrigados e necessitados. Graças à solidariedade de muitos, as doações também não têm parado de chegar e são elas que ajudam 250 famílias que ainda levarão um tempo para conseguirem se reestruturar.
Dezenas de mantimentos têm chegado todo dia na sede do Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar) da cidade. As assistentes sociais separam e preparam as cestas báscias que são distribuídas às famílias cadastradas e também àquelas que recorrem ao órgão. De acordo com a presidente do Provopar, Neli Couto Ribeiro Saliba Costa, a preocupação agora é em relação a manutenção dessas famílias e, por isso, cada doação continua sendo bem vinda.
''Temos recebido de tudo, mas roupas e calçados, por exemplo, são itens que não precisamos mais. As famílias estão precisando de utensílios domésticos, móveis, camas, guarda roupas e portas, muita portas. A maioria das pessoas teve as portas de suas casas totalmente quebradas e arrebentadas pela enchente'', justificou.
Na casa de Ciro e Adelina de Jesus Ribeiro da Costa, portas não são necessárias, até mesmo porque a casa inteira ficou comprometida. Eles aguardam uma posição do município para conseguir providenciar outro lugar pra morar. ''Estamos na casa de minha filha e só podemos procurar outra residência depois que alguém nos ressarcir. Nosso prejuízo foi de pelo menos uns R$ 150 mil. Estou vindo pra cá só pra lavar as roupas que estão dando pra usar; perdi todo o resto'', lamentou Adelina.
O comerciante Esoaldo Farias, 56, que morou a vida inteira na zona rural e tinha um bar localizado no Bairro Serraria, ainda se assusta ao ver sua casa e o estabelecimento debaixo de uma quantidade enorme de areia. ''Eu não faço ideia do tanto que perdi. Só sei que está tudo assim, não tem mais o que fazer. O lugar mudou, está tudo diferente. Onde antes era chão batido, agora é montanha de areia'', comentou.
Na residência da dona de casa Maria José dos Santos, o que parecia impossível aconteceu. Eletrodomésticos, como fogão, geladeira e freezer, que ficaram totalmente debaixo da água que cobriu a casa até o teto, continuam a funcionar. ''Deixei uns cinco dias no sol secando e depois fui testar. Perdi um sofá e algumas roupas, mas graças a Deus está dando para usar o restante. Foi uma tragédia, mas a gente prefere mesmo é esquecer e retomar a nossa vida'', disse. (F.B.)
Números do estrago
Avaliação de danos aponta prejuízo de R$ 15 milhões em Tomazina:
✓ Alto dano no solo da cidade por meio de erosões, deslizamento e contaminação
✓ Alto índice de desmatamento
✓ Pelo menos 1,3 tonelada de grãos foram perdidos; cerca 150 animais de grande e pequeno portes foram mortos
✓ 150 casas foram danificadas, 50 totalmente destruídas
✓ 500 pessoas continuam desabrigadas (morando em casas de amigos ou familiares) e outras 100 desalojadas
Fontes: Defesa Civil do Paraná e Prefeitura de Tomazina
SOS Tomazina
Pelo menos 250 famílias já foram atendidas desde o dia 30 de janeiro. Ao todo foram distribuídos:
✓ 350 cestas básicas
✓ milhares de peças de roupas
✓ 200 caixas com 12 litros de leite cada
✓ mais de 800 colchões
✓ dezenas de utensílios domésticos
Serviço A população continua precisando de doações de alimentos e, principalmente, de móveis e eletrodomésticos. Informações pelo fone (43) 3563-1180





