A gente percebe um pouco de preconceito
Nos corredores e grandes espaços do Colégio Agrícola Manoel Ribas o que se vê é uma legião de garotos entre 14 e 17 anos. A maioria tem o perfil típico dos adolescentes do campo, com suas botinas, bonés e calças jeans. Entre eles, porém, de vez em quando é possível enxergar um rosto feminino. Elas ainda são minoria - cerca de 10% - e ainda não têm a opção de morar no colégio, mas garantem que dão conta do recado.
Uma das alunas que tanto podem ser vistas preparando compotas no Laboratório de Agroindústria como de enxada nas mãos preparando silagem está Angélica Cesar, uma bela jovem de 20 anos que saiu de Cruzmaltina (86 km ao sul de Apucarana) para realizar o sonho de se qualificar na área de agropecuária. ''Mesmo sabendo que as mulheres eram minoria no colégio resolvi me matricular. Minha família não se opôs, mas a gente ainda percebe um pouco de preconceito por parte das pessoas.''
Angélica mora em uma república e no final do ano passado conquistou o título de Miss Agricolina em concurso feito durante os jogos inter-colégios agrícolas da região Noroeste. A posição de miss não mudou em nada sua rotina na escola. ''Faço de tudo aqui. Nunca enfrentei dificuldades nas aulas práticas'', garante.
Quem também sempre soube que seu destino estava no campo é Felipe Koval, de 16 anos, que cresceu nos domínos do colégio. Filho do técnico agrícola Clóvis Koval, um ex-aluno que trabalha na instituição há 20 anos, o garoto se acostumou a acompanhar o pai na rotina da escola. ''Gosto demais disso aqui. Me formo no final deste ano, mas já sei que estes foram os três melhores anos da minha vida. A gente convive tanto com os colegas que é como se fôssemos uma família.''
Para Emanuel Augustinho Coutinho da Silva, 16 anos, de Tamarana (62 km ao sul de Londrina) a adaptação à rotina do colégio não foi tão fácil. ''Logo de cara fiquei em um quarto com 14 pessoas que não conhecia, sentia muita saudade da família. Mas ao mesmo tempo, como tem muita gente na mesma situação, um ajuda o outro'', conta o adolescente. Emanuel revela que no dia-a-dia da escola ninguém fica parado. ''Quando não estamos em aula, fazemos capoeira, aulas de espanhol, treinamos futebol.'' Ele revela que ali conheceu gente do Brasil inteiro, e nem quer pensar na saudade que vai sentir de todos depois de se formar. ''Não sei se teria uma oportunidade como esta em outra escola'', diz. (S. L.)





