A gente, enfim, vai ter a terra própria, diz Antonio
Com Antonio José Pedro e a mulher estão na nova terra dois filhos solteiros, Ademar, 19 anos, e Nei, 23 anos, que também foram contemplados com o reassentamento porque trabalhavam na área que será alagada. Outro filho, Sérgio, 26 anos, pai de três crianças, não comprovou trabalhar na área apesar de morar com pai. Por isso não recebeu terra própria.
Junto com eles foram sete cabeças de gado, dois cachorros e um periquito. A transferência aconteceu no final da semana passada. Os animais e a mudança foram em caminhões e as pessoas (menos Pedro) em camionetas, por conta da Copel. Na partida, Ademar acomodou com especial cuidado o quadro com as fotos de toda a família e o pai recomendou igual cuidado ao passarinho e à antena parabólica, adquirida com muito sacrifício.
Enquanto Rita choramingava na hora de embarcar na camioneta, Antonio traçava planos: A gente, enfim, vai ter a terra própria, depois de tanto tempo. Vai ser muito melhor. Enchente, nunca mais, graças a Deus. Ele quer plantar soja e criar frangos. Dizem ser bom negócio. Para os filhos, prevê futuro bem melhor que em Alegria.
Rita diz que não gostou do lugar. Depois, diz que sua tristeza deve-se à saudade. Pois aqui (em Alegria) a gente conhecia todo mundo, tem muitos compadres e comadres. Ela não leva em conta que as famílias são transferidas em bloco, a maioria para os mesmos reassentamentos.
Do local que a família ocupava há mais de quatro décadas até a margem do Rio Iguaçu a distância é de pouco mais de 100 metros. A travessia é feita em balsa, com cuidado porque o rio está cheio. Ao chegar na outra margem, Antonio José Pedro dá adeus ao Iguaçu. Era bom a gente viver aqui, mas acho que não vou ter saudade, principalmente do rio, porque enchente nunca mais quero ver.
De outro ponto da região dos alagamentos de Salto Caxias, em Barra Grande (município de Três Barras do Paraná), partiram Assis da Silva, 40 anos (o Tide, como é conhecido pelos compadres), a esposa Loreni e quatro filhos. Durante quase 30 anos Tide entregou 30% do que produzia ao dono dos 5 alqueires que arrendou. Depois decidiu não mais plantar. Porque sobrava praticamente nada.
Ele preferiu cuidar do gado e lavouras do dono, em troca de um salário mínimo. No reassentamento, na fazenda Varguinhas, recebeu 10 alqueires prontos para plantar e receberá mensalmente da Copel um salário mínimo de auxílio, durante três anos. Loreni lembra que a família já morou em paiol. Mas agora vamos parar de sofrer.
Além das questões relacionadas à terra e à produção, os reassentados têm acompanhamento de uma equipe da Copel, que cuida dos aspectos sociais e da integração aos novos locais. Antes, foram preparados para a mudança, em vários encontros nas comunidades. A assistente social Cleci Biedacha diz que é natural que muitos fiquem tristes, por sair dos locais onde moraram durante décadas.
Segundo Cleci, as pessoas mais idosas são as mais afetadas psicologicamente. Porque, afinal, aquela terrinha foi praticamente a vida delas. Mas a maioria já chega nos reassentamentos com um sorriso na orelha. A assistente social estima que a tristonha Rita Pedro logo estará adaptada, pois verá a diferença na qualidade de vida que a família está adquirindo. (P.P.)





