Edson MazzettoPaulo José Alves de Oliveira: paraibano, arrasta família juntoClaudecir José Zanella, 30 anos, paranaense de Dois Vizinhos (Sudoeste do estado) e pai de uma menina de 4 anos, já passou por cinco barragens em uma década, tempo que considera suficiente para ‘‘pegar gosto’’. Em Salto Caxias, trabalha no setor de montagem. Claudecir já tentou mudar de trabalho, mas num emprego na cidade ganharia menos. ‘‘Além disto, a gente cria dependência da obra’’. Em barragens, além da remuneração melhor há sempre emprego garantido, ‘‘porque o capataz arruma pra gente, só não para os nó-cego’’, como classifica os ‘‘maus trabalhadores’’.
Edson MazzettoClaudecir José Zanella: emprego garantido e salário bomO montador relata que nunca teve dificuldade para arrumar emprego em hidrelétricas em construção. A mulher e a filha estão em Boa Vista da Aparecida, onde devem permanecer assim que ele partir para outra obra. ‘‘Já vi umas três possibilidades de trabalho para depois que Salto Caxias estiver pronta’’, afirma. Ao seu lado, o feitor de pedreiros Gilmar José Bonbassaro, 30 anos, três filhos, nascido em Capitão Leônidas Marques (PR) e também com 10 anos de barragem, igualmente começa a se preparar para transferência. Ele quer ir para o Centro-Oeste brasileiro, onde já trabalhou.
Edson MazzettoGilmar José Bonbassaro: próxima parada é o Centro Oeste brasileiroNa cidade, Gilmar diz que não ganharia nem a metade dos R$ 1,1 mil mensais que recebe em Caxias. A família reside em Cascavel em casa própria e, estando em Salto Caxias, pode visitá-la aos finais de semana. ‘‘Lembro que, quando comecei em barragem, meu primeiro filho tinha apenas 6 meses’’, conta. Às crianças, ele explica sempre que passar a semana afastado delas ‘‘é o preço que paga para poder dar-lhes algum conforto’’. Com o pessoal que comanda na obra e com os amigos algumas vezes conversa sobre assuntos de família, procurando orientá-los.
‘‘A gente sempre pode dar uma orientação’’. Inclusive sobre a cachaça, ‘‘que além de complicar a vida na família, é perigo direto de acidente na obra’’. Gilmar prefere trabalhar com operários iniciantes em barragem, ‘‘porque muitos antigões acham que sabem tudo e acabam se encostando’’, não se empenhando adequadamente. Como feitor, aprendeu que é mais difícil lidar ‘‘com o pessoal lá do Nortão’’ (como classifica o Norte e Nordeste do país) ‘‘porque eles têm menos instrução que os do Sul’’. O também feitor Manoel Pereira dos Santos, 45 anos, concorda: ‘‘Peão novo é melhor’’.
Edson MazzettoManoel Pereira dos Santos: dureza virou rotina na vida de peãoNascido em Mutum (MG), pai de cinco filhos, Manoel tem 22 anos de barragem. A primeira foi Itaipu. Ele reconhece que ‘‘essa vida é dura na hora do concretão’’. Ele conta que já ficou ‘‘32 horas direto’’ trabalhando com o concreto, tarefa que considera ‘‘boca quente’’. Segurar o vibrador que compacta a massa de cimento, areia e pedra, ‘‘é pra quem é bom de braço’’. O equipamento pesa 40 quilos e a trepidação tensiona toda a musculatura do corpo. Ele se diz acostumado com a dureza e já pensa na barragem seguinte, talvez a última, porque está perto a aposentadoria.
Mesmo quando isso ocorrer, Manoel não vai parar de trabalhar. ‘‘Nunca tive problema de dente, a saúde está beleza, e nunca faltei um dia de serviço’’, orgulha-se. Ele concorda com o encarregado de solda Paulo José Alves de Oliveira que, apesar das diferenças de origem e destino dos barrageiros, eles formam uma ‘‘irmandade’’, e a figura do trabalhador rude, sem qualificação e muitas vezes criador de incidentes vai ficando para trás. Atualmente, as empresas se preocupam mais em qualificar os operários, com orientação sobre segurança e com palestras.
Há o alerta para questões como o alcoolismo e outras drogas. ‘‘Antigamente, já vi peão cuspindo barbante, o que é absurdo em um local de risco como a barragem’’, relata Manoel. Hoje, afirma que ‘‘droga’’ entre eles ‘‘é no máximo a maconha’’, mas ainda assim são raros os que usam o entorpecente, o que condena vigorosamente.
O feitor Gilmar Bonbassaro diz que todos os encarregados de turmas não gostam de ‘‘peão embromão, que faz corpo mole no trabalho’’, porque eles causam problemas e ‘‘contaminam os colegas’’. Animosidade entre eles também é combatida com firmeza, ‘‘porque com ambiente ruim dá até acidente’’.

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