A filosofia do sexo
Para chegar a uma vida sexual equilibrada, não existe remédio milagroso. No momento em que o medicamento Viagra chega às prateleiras das farmácias brasileiras, especialistas alertam sobre o perigo de buscar satisfação e orgasmo a qualquer preço - inclusive em prejuízo da saúde mental e física
A FILOSOFIA DO SEXO
CORRIDA AO VIAGRA PREOCUPA ESPECIALISTAS
Benê Bianchi
Cesar AugustoAnáliseA sexóloga Regina Mara Teixeira:
Viagra e prótese são métodos que
não funcionam dentro da psiquêO que a filosofia tem a ver com o Viagra, a nova droga que chega ao mercado prometendo uma verdadeira revolução ao mundo masculino? Parece difícil fazer a associação, mas foi isso que aconteceu na noite da última quarta-feira, em Londrina, durante o lançamento do 1º Congresso Brasileiro de Disfunção Sexual, que será realizado em outubro na Cidade. Paralelamente serão realizados o 2º Encontro de Disfunção Sexual e o 1º Simpósio Brasileiro sobre Transexualismo.
No lançamento dos eventos foi realizado o fórum Sexo: Prazer e Dor, que teve como palestrante o professor londrinense Alexandre do Espírito Santo. Ele abordou o tema tendo sua experiência pessoal como fio condutor. Fez várias citações de filósofos como Schopenhauer - o gênio do pessimismo - e Fénelon. Mas foi o presidente do comitê organizador dos eventos, o médico Márcio Dantas de Menezes, quem ligou o assunto à nova mania nacional.
Arquivo FolhaCuidadoO medicamento Viagra: especialistas pedem critério no uso da
droga. Médicos dizem que, em certos casos, o Viagra pode até
provocar dependência psíquica ou ocasionar problemas de saúdeA filosofia é o princípio de tudo. O homem, de uma forma generalizada, tem muita dificuldade perceber seu corpo. Se o indivíduo não conhecer seus limites entre prazer e dor, ele perde a noção de sua realidade e passa a viver uma fantasia na busca de felicidade, do prazer sexual comenta Menezes.
Quando o homem perde a noção de sua realidade, incorre em erro que pode vir a ser fatal: usar o Viagra de forma indiscriminada e sem orientação para atingir o prazer sexual. Os médicos receiam que a nova droga possa produzir efeitos indesejáveis e até mortes.
Menezes usa a figura de um triângulo de cabeça para baixo para ilustrar a ligação entre os limites da dor, prazer e sexo. O prazer e a dor seriam os dois ângulos superiores, com uma linha ligando as duas extremidades. A dor e o prazer transitam na mesma linha. O sexo seria o interior do triângulo. Quando se tenta ultrapassar os limites da dor ou do prazer caímos num espaço abstrato, em que não existe chão. Quando isso ocorre, a pessoa normal pode achar que o Viagra é sua salvação, que pode levá-lo à condição de super-homem.
Ele ressalta que é preciso que saibamos quais são esses limites. Por que um homem normal quer usar o Viagra?, questiona Menezes. Ele mesmo responde: É para ultrapassar seus limites e poder entrar numa fantasia. O Viagra pode funcionar como um tóxico. O indivíduo corre o risco a desenvolver uma dependência emocional do medicamento. A grande preocupação, segundo o médico, é com os adolescentes. Quando o Viagra chegar às farmácias, eles podem fazer uso do remédio para se mostrarem mais potentes diante dos amigos. Esta deve ser uma preocupação da saúde pública, alerta Menezes. O medicamento estará nas farmácias a partir de 1º de junho.
A preocupação sobre o uso indiscriminado do medicamento não é em vão. Mesmo antes de chegar ao mercado convencional brasileiro, qualquer pessoa já podia ter acesso ao Viagra pelo mercado clandestino, viagem de amigos ou parentes ao exterior e até mesmo passando rapidamente por bancas de camelôs. O medicamento foi até alvo de testes em programas de televisão do Brasil e Estados Unidos.
Embora tenha apresentado excelentes resultados, o novo medicamento - conhecido como o diamante azul do homem (por ser dessa cor e ter a forma de um losango) - ainda instiga muitas dúvidas na área médica. São incertos os resultados físicos e emocionais do Viagra.
O cirurgião vascular Alfredo Romero, membro da Sociedade Brasileira de Andrologia e especialista em impotência, esteve em Londrina para participar do fórum. Ele alerta que o Viagra funciona apenas nos indivíduos que realmente têm disfunção erétil (dificuldades em atingir ou manter a ereção).
O uso do medicamento é bastante recente no mundo. Os resultados das pesquisas começaram a ser apresentados em congressos há seis anos. Foram realizados estudos em 4,7 mil homens. Segundo Romero, apenas 500 tiveram acompanhamento durante um ano de administração da droga. Deste total, 10% apresentaram efeitos colaterais que levaram à suspensão do uso e, entre eles, oito morreram.
As mortes foram registradas em pacientes que apresentaram a chamada contra-indicação absoluta ao medicamento - por reação ao componente sildenafil ou por usarem potentes vasos-dilatadores coronarianos. Nestes últimos casos, a pressão baixa a níveis incompatíveis com a vida. O paciente não sobreviveria nem mesmo se estivesse dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva de um hospital especializado em doenças cardíacas, compara Romero. No Brasil, foi registrada uma morte recente devido ao uso do Viagra.
Romero considera que a droga foi estudada em um número reduzido de pacientes. Portanto, os médicos precisam ter cautela ao indicá-lo. Segundo ele, além dos pacientes que apresentam contra-indicação absoluta ao medicamento, há uma porcentagem de pessoas que apresentam efeitos colaterais como fortes dores de cabeça, náuseas, tonturas, alteração de visão, etc. Esses efeitos também impedem o uso do Viagra.
O mais intrigante até agora vem sendo a ação do remédio em cada organismo. Romero diz que receita o Viagra para 40 pacientes, mas um deles o deixou intrigado. Ele começou usando comprimidos de 50 miligramas. Certo dia me telefonou dizendo que não estava funcionando. Pedi que ele aumentasse para 100 miligramas e também não funcionou. Um comprimido de 25 miligramas trouxe o efeito desejado. Isso nos leva a concluir que o resultado positivo não está ligado à potência do comprimido, mas à resposta de cada organismo. Esse dado é novo.
Romero salienta que até muito recentemente apenas os médicos ligados ao laboratório Pfizer tinham acesso ao Viagra. Só agora outros médicos estão trabalhando com a droga e avaliando os resultados. Mas ainda não sabemos o que vai acontecer em dois ou três anos. Não sabemos quais os efeitos do uso prolongado do remédio, adverte.
Outro alerta do médico: há homens estimulando as companheiras a usar o Viagra. Ele salienta que estão sendo realizadas pesquisas sobre esse tipo de aplicação, mas é muito cedo para dizer se haverá sucesso. Por enquanto as mulheres devem aguardar a conclusão dos estudos, diz Romero.
A corrida ao Viagra e o uso indiscriminado da droga não preocupam apenas médicos. A diretora da Clínica de Sexologia da Universidade Tuiuti do Paraná, Regina Mara Teixeira, também participou do fórum em Londrina e defende que o tratamento para certos casos deve ser feito por uma equipe multidisciplinar.
Os relacionamentos andam muito conturbados. A sexualidade é o grande acusador de que as coisas não vão bem, comenta a sexóloga. Ela atribui à chamada revolução sexual dos anos 60 grande parte dos problemas registrados hoje. Atualmente, nossos adolescentes são mais resolvidos sexualmente do que nossos adultos, compara.
A liberalização do sexo, na opinião de Regina, acabou gerando um nível maior de exigência do casal. A mulher se queixa da falta de orgasmo, que acaba bloqueado por conta dos fatores emocionais. Já para o sexo masculino, a disfunção erétil é o estigma do homem assustado com o seu papel sexual. A alta exigência da mulher e a angústia masculina levam à crise do relacionamento, na opinião da sexóloga. O Viagra e a prótese podem resolver parte das angústias, mas é preciso ter cuidado, porque dentro da psiquê esses métodos não funcionam. Meu apelo é para que os profissionais da área saibam fazer diagnóstico diferencial e encaminhar os pacientes para tratamentos adequados, sem entrar na ansiedade da receita.





