''Vou num pé e volto n'outro/No sítio levar almoço/A colheita está em pleno vapor/Sol e vento nos cachos de trigo, um mar dourado, a plantação''. A segunda estrofe do poema Minha Astorga revela o orgulho de um garoto de 9 anos, que estuda o 5º ano em escola pública, de viver no próspero município do Norte Central, de cerca de 25 mil habitantes, instalados em terras férteis, grande produtora de grãos.
''Vou num pé e volto n'outro/Cidade pequena tem esta vantagem/A todo canto posso ir sem fazer grande viagem''. Na quinta estrofe, o autor, Ulisses Gallo de Lima, provoca, em sua ode, as crianças da cidade grande. Quase um suspiro de satisfação pela liberdade que só o interior é capaz de oferecer.
A força da composição de Ulisses se sustenta na ideia de que a velha infância resiste no mundo novo, onde os encantos são cada vez mais virtuais. ''Vou num pé e volto n'outro/Com os amigos na rua brincar, chutar bola, pega-pega, esconde-esconde, na sombra das árvores me refrescar/Carro na rua quase não passa e o vovô estica a vida na praça'', diz a terceira estrofe.
A obra comoveu os julgadores da 3 edição da Olimpíada de Lingua Portuguesa Escrevendo o Futuro, competição bienal entre escolas públicas promovido em conjunto pelo Ministério da Educação e pela Fundação Itaú Cultural.
Na solenidade em Brasília, Ulisses subiu ao palco, vestiu a medalha de ouro, recebeu dois presentes que toda criança gostaria de ganhar, mesmo aquelas do interior mais tradicionalista: um notebook e um tablet.
Virou herói da Escola Municipal Monsenhor Celso, também premiada com um laboratório inteiro de informática: dez computadores, um datashow, uma impressora e livros suficientes para formar outra pequena biblioteca. A glória foi completada com o desfile triunfal no caminhão do Corpo de Bombeiros pela cidade, que retribuiu a homenagem que recebeu do pequeno filho com aplausos e gritos de saudação pela conquista.
Ulisses tem temperamento suave, em nada aparenta as almas normalmente perturbadas que caracterizam um poeta. Na verdade, admite, nem é lá um grande leitor, embora tenha estudado obras de Vinicius de Moraes e Cecília Meirelles para a Olímpiada. O pequeno astorguense tampouco é um alienígena entre os amantes de games, por exemplo. Dedica boas horas a jogar Sixguns, viver a fantasia de ser um temido pistoleiro do Velho Oeste. Gosta de bicicleta e skate. Vai a shoppings de Maringá com frequência, gasta parte da mesada no Burger King, ouve som pesado - a banda preferida é a norte-americana Slipknot - e torce por Neymar e pelo Santos.
É um garoto essencialmente urbano mas que gosta de um bom contraponto rural. Acha que Astorga, com sua prosperidade e boa localização - 40 quilômetros de Maringa e 70 de Londrina - seu habitat ideal. O pequeno poeta não se deixa levar pelo glamour associado à cidade grande. Sabe muito bem que não precisa dela para ser feliz. ''Lá tem mais ladrão, mais fumaça. Tudo é longe. Lá eu não posso andar sozinho'', diz ele.
O curso que o aguarda na universidade está na ponta da língua: agronomia, o ofício que vai ''condená-lo'' ao campo. Lembra da pergunta que fez para a mãe antes da sua jornada olímpica: ''Dá pra ser poeta e agricultor ao mesmo tempo?'' Quer ser como o pai e o avô, que vivem mais nas fazendas da família nos arredores de Astorga, do que propriamente na cidade. No calor, as propriedades se transformam em um ''tapete'' de soja, no frio, de trigo. O campeão olímpico do poema sobe no trator, fala de como gosta de acompanhar o pai na aplicação dos defensivos agrícolas, olha pra cidade, um naco do horizonte. Já esqueceu a medalha no peito. Ulisses é um garoto premiado pela habilidade com as palavras mas sabe que a verdadeira vitória é ser feliz no lugar onde nasceu.

Confira os textos premiados dos três paranaenses na Olimpíada da Língua Portuguesa - edição 2012


Minha Astorga


Vou num pé e volto n'outro.
Tic-tac, tic-tac, trimmmm...
- Acorda, menino!
Pra escola vou sozinho,
pois conheço o caminho

Vou num pé e volto n'outro.
No sítio levar almoço.
A colheita está em pleno vapor.
Sol e vento nos cachos de trigo,
um mar dourado, a plantação.

Vou num pé e volto n'outro.
Com os amigos na rua brincar,
chutar bola, pega-pega, esconde-esconde,
na sombra das árvores me refrescar.
Carro na rua quase não passa
e o vovô estica a vida na praça.

Vou num pé e volto n'outro.
Ver a lua pontear bno chafariz,
as cordas do violão.
Praça Chitãozinho e Xororó,
uma homenagem a sua canção.

Vou num pé e volto n'outro.
Cidade pequena,
tem esta vantagem.
A todo canto posso ir,
sem fazer grande viagem.

Astorga dizem ter outra na Espanha,
com belos castelos e esplendor.
Mas a minha Astorga é assim,
todo lugar que vou...
Vou num pé e volto n'outro.

Ulisses Gallo de Lima, estudante da Escola Municipal Monsenhor Celso, Astorga (PR)

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Menino ladino


No mês de agosto, a minha cidade recebe a visita de um menino malandro e muito agitado. Logo pela manhã, quando acordo, já ouço o seu assobio melodioso. Tomo o meu café rapidamente e vou para fora. Lá encontro o menino e ele já começa a me provocar, bagunçando meus cabelos, sacudindo minhas roupas, quase me carregando para onde ele vai, mas fico firme e sigo em frente. Por um minuto ele some, e logo volta, com mais força, levando consigo os aromas da natureza e das pessoas que encontra.

Vou para escola e ele me acompanha com muita alegria. Toca o sinal para começar a aula e tenho que deixá-lo lá fora. Mas, quando olho pela janela, vejo o moleque convidando as árvores para uma dança, e me perco no seu bailado...

Viro-me para prestar atenção no que a professora diz, de repente alguém bate à janela buscando atenção, olho e não vejo nada, então fico atenta, a fim de escutar o seu chamado suave. Uma batida na porta. A professora abre prontamente, ele entra com felicidade e carrega tudo que vê pela frente: papéis, lápis, cortinas... entretanto, o que ele mais gosta de carregar são os nossos cabelos. Ah! Menino ladino!

À tarde eu vou para a fazenda e o menino vai comigo, cantando de um jeito que só ele sabe: sssssssssss. Nas lavouras de trigo até parece um professor que ensina os alunos a dançar balé. É lindo ver a plantação sendo conduzida por ele, em ondas, em voltas e reviravoltas.

Volto para casa e ele me acompanha, invade a minha vida e com insistência me convida para brincar. Às vezes, resolve seguir outras direções e desaparece.

Depois de algum tempo retorna, ora discreto, ora atrevido, disposto a não mais nos deixar. À noite, quando me deito e a cidade fica em silêncio ouço o seu canto novamente, parece que está cantarolando uma canção de ninar para eu dormir, fecho os olhos e tenho a impressão de ouvi-lo sussurrar ao meu lado e adormeço.

Quando setembro chegar ele irá embora, deixando um rastro de saudade no ar. Assim são os ventos do mês de agosto em São Pedro do Iguaçu: um moleque arteiro que vive a aprontar, deixando tudo fora do lugar.

Mara Domingos da Silva, estudante do Colégio Estadual São Pedro, São Pedro do Iguaçu

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Cores, aromas e sabores de infância


Os aromas sempre despertam em mim lembranças e saudades. Como é bom voltar no tempo à infância deixar escapar dos guardados de minha memória fragmentos de um tempo tão bom! Fecho os olhos e pareço que vejo o lugar: Sitio São Salvador.

Lembro-me das casas enfileiradas, todas pintadas de azul e iluminadas pela luz do sol. Sete casas, sete famílias e muitas crianças para pintar o sete! O cafezal dominava a paisagem e consumia o trabalho de toda a família, até das crianças. Minha tarefa era limpar os troncos com as mãos e tirar do interior dos pés de café os preciosos grãos que teimavam em ficar escondidos entre galhos e folhagens. A lavoura rendia trabalho para o ano todo: capinar, arruar, derriçar, rastelar, peneirar, ensacar. Ufa...! A melhor parte era quando a colheita estava no terreirão para secar.

O cheiro do café secando ao sol não me sai da memória... Ao final do dia toda a familia ia amontoar e cobrir os grãos para protegê-los do sereno da noite. Depois de coberto, o monte de café se tornava nosso brinquedo preferido: um escorregador gigante, nosso parque de diversão!

À noite, depois do banho de bacia e do jantar à luz de lamparina, todos os moradores se juntavam no terreirão para um dedinho de prosa. O que se ouvia era uma sessão de casos e ''causos''. As crianças tremiam de medo quando as histórias eram de assombração No sitio ainda não tinha a luz elétrica para ofuscar o brilho das estrelas e nem da luz cintilante dos vaga-lumes. As crianças amavam capturar aqueles seres inigmáticos. Cantavamos a rima mágica '' Vaga-lume tem tem. Seu pai ta aqui, sua mãe também''. Não sei se por crença ou por uma questão de coincidência os bichinhos sempre eram atraidos para nossas mãos.Pobres insetos! Só eram devolvidos a natureza deppis de conferidos e contabilizados. É que apostavamos para ver quem era o maior e melhor caçador de vaga-lumes.

No final da década de 1970, meu padrinho, que era o proprietário do sitio, apareceu com uma novidade que ia mudar para sempre a nossa rotina noturna: um televisor preto e branco que funcionava a bateria. Logo fomos enfeitiçados por aquela máquina. O terreirão foi deixado de lado. Os vaga-lumes passaram a voar sussegados. NInguém queria perder um capitulo da novela '' O Direito de Nascer ''.

A parte engraçada da história é que não assistiamos a nenhum comercial. A televisão era cuidadosamente desligada nos intervalos para economizar bateria.
Nas noites de São João o cheiro das delicias exalava das janelas de todas as casas. Bolo de milho, biscoito de polvilho, chá, chimango, quentão e muita diversão. Sete casas, sete fogueiras! E no final o santo terço em homenagem ao santo do dia.

As primeiras letras aprendi em uma escolhinha rural.Era de madeira, com apenas uma sala dividida para duas turmas. Dois quadros, carteiras duplas. A professora tembém se dividia em duas, para atender os alunos e preparar nossa merenda no fogão a lenha. Se bem me lembro, pelo menos uma vez por mês lavávamos a escola: agua de poço, sabão de soda, vassoura e escovão. O assolha de tabua bruta ficava branquinho!

Eramos tão felizes, mesmo não tendo as facilidades de hoje! Gostavamos da luz de lamparina, do sabor da agua do pote, do aroma do ferro a brasa, do macio chiado do colchão de palha. Mas tudo o tempo leva...

Quando meu padrinho faleceu, o sitio foi vendido. Tivemos que nos mudar para a cidade. As casas foram sendo demolidas uma após outra. O café deu lugar à pastagem e hoje o destruido espaço da minha infância, não lembra em nada o que já foi um dia. Neste ano, as últimas árvores do nosso pomar foram arrancadas. O sítio foi tomado pelo verde da plantação de cana.

Passei toda minha infância naquele sítio maravilhoso localizado aqui mesmo neste município de Tamboara. Foi assim minha infância, vivida com simplicidade e amor, sinto falta das cores, aromas e sabores daquele lugar. Quando revivo este momento meus olhos se enchem de lágrimas.


Nathalya Cristina Trevisanutto, estudante do Colégio Estadual Doutor Duílio Trevisani Beltrão, Tamboara (PR)


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