A fé que se desenvolve no clausuro
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sábado, 30 de julho de 2005
Adriana Dias Lopes<br> Agência Estado 
São Paulo - ''As senhoras já ouviram falar do Marcos Valério?'' Não. ''Qual foi a última vez que ligaram a televisão?'' Em março. ''O que fizeram ontem, às 4h45?'' Rezamos. E às 15?'' Rezamos também. As respostas vieram de quatro mulheres adultas que moram na Zona Norte de São Paulo. Uma pista: a mais recente cena vista na TV por elas foi a eleição do papa Bento XVI. São monjas beneditinas contemplativas que vivem enclausuradas no Mosteiro de Santa Maria, lugar que tem despertado o interesse de um número cada vez maior de mulheres nos últimos anos.
O Brasil tem hoje 17 mosteiros beneditinos contemplativos, com 304 monjas no total. Na década de 40, havia apenas um. O Santa Maria, o mais antigo da ordem beneditina da América Latina, conta com 26 monjas. Em 1989, eram 20. ''Ficávamos dois anos sem ter nenhuma noviça'', lembra a irmã Lidia Tavares, de 73 anos, quase 50 de reclusão. Só neste ano, o Santa Maria ganhou três noviças.
O Mosteiro da Luz, da ordem das concepcionistas, também em São Paulo, vive realidade parecida. ''Há 15 anos, quando entrei, eram no máximo duas mulheres batendo em nossa porta a cada ano. Em 2005 estamos com sete interessadas'', conta irmã Claudia Hodecker. Ou seja, há um número cada vez maior de mulheres que não só abrem mão da vida leiga, mas escolhem viver para o resto da vida em silêncio, louvando Deus com orações. E praticamente sem pôr os pés para fora de casa.
Especialistas afirmam que o fenômeno é uma mistura de inquietação pessoal com mudanças sociais. ''Não se entra mais para a Igreja pelo desejo de transformar o sistema socioeconômico. A vocação religiosa vem perdendo seu ideal de transformação das estruturas sociais'', explica a socióloga Sílvia Fernandes, coordenadora de pesquisas no Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris). ''Hoje se cultiva uma espiritualidade centrada na divindade, na intensificação da relação 'eu e Deus'. E o olhar, nesse caso, sobre a sociedade é diferente: é por meio da dedicação ao serviço sagrado e ao intimismo religioso.''
O colega de profissão de Sílvia, Antônio Braga, do Programa de Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, complementa: ''Na década de 70, as discussões sociais na Igreja eram muito mais fortes. Basta pensar na Teologia da Libertação, nas comunidades eclesiais de base. Hoje as questões estão voltadas para a satisfação pessoal.''
Não seria justo usar o isolamento físico e intelectual como única referência para identificar as freiras enclausuradas. Elas têm uma função na Igreja com um profundo significado, que é rezar em louvor a Deus. ''A Igreja precisa de dois pulmões para sobreviver. Um é a ação, a prática. Outro, o transcendental, o conhecimento que ultrapassa os limites da experiência'', diz Fernando Altemeyer, teólogo da PUC de São Paulo. ''Ela consegue viver com um só. Mas fica fragilizada.''


