Entre uma conversa e outra, Jussara relembra o período em que passou na faculdade. Segundo ela, apesar das dificuldades, passou direto todos os anos e não teve de cursar nenhuma disciplina em regime de dependência. ''O começo foi muito difícil. Os professores passavam o conteúdo muito rápido e tive que aprender a correr atrás. Além disso, senti um pouco de discriminação'', conta. ''A gente foi criado de um jeito diferente'', tenta explicar. ''Sabe aquele aluno que se expressa melhor, que tem a família com mais condições? Este aluno tem mais destaque na sala. É uma questão econômica, também'', reflete.
Outra dificuldade foi a moradia. ''No 1º ano morei na casa da prima da minha mãe, em Cornélio Procópio. Já no segundo ano ia e voltava todos os dias com colegas meus da aldeia vizinha. Esse período foi bem difícil. Foram quatro anos de luta''. Durante os quatro anos da faculdade, Jussara recebeu bolsa-auxílio no valor de R$ 350, do governo estadual.
Agora que virou professora, Jussara vai lecionar para 45 crianças da aldeia.
Ela quer repassar o que aprendeu, especialmente assuntos relacionados ao meio ambiente, e incentivar os alunos a prosseguir os estudos. Nos planos da jovem também está uma especialização ou mestrado em projetos de meio ambiente. ''A faculdade foi só o começo. Hoje temos índios dentistas, médicos, advogados e professores. É preciso nos organizar e nos preparar, por que a concorrência está muito grande''.
Outros jovens indígenas da região estão cursando o terceiro grau. Eloy Jacintho, que cresceu na Reserva Laranjinha, a 12 quilômetros dali, passou para o 3º ano de Direito na Universidade Estadual de Londrina. Rodrigo Portela, 24, também criado em Laranjinha, mora há 15 anos em Curitiba e este ano vai iniciar o curso de Música, na Universidade Federal do Paraná, com especialização em violino. A irmã de Jussara, Paula, passou no vestibular de Enfermagem em uma universidade em Ponta Grossa, mas desistiu por não ter condições de se manter estudando longe da família.(E.S.)

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