A esperança é uma vila de futuro incerto
Walter Ogama
De Londrina
A localidade rural tem um nome sugestivo: Vila Esperança do Norte. Pertence ao município de Alvorada do Sul, no Norte do Paraná, e teve um passado que prometia muito desenvolvimento. Nos sábados, havia filas para fazer compras no mercado da família Solcia, uma das pioneiras do lugar.
Os consumidores chegavam das colônias de café das redondezas não só para levar comida e produtos de higiene. A vila tinha até uma farmácia, coisa rara num lugarejo pequeno. A Avenida Manoel Ribas, que recentemente foi rebatizada com o nome de um pioneiro, a quem é atribuido o título de fundador Avenida Emílio Solcia , teve na boa fase da cafeicultura da região até um entreposto bancário.
Aparecida Solcia Soares, 61 anos, é moradora da Vila Esperança do Norte desde 1953 e trabalha com comércio desde 1955. A mercearia da família hoje não passa de um bar. No passado, o estabelecimento atendia colonos de sete fazendas próximas. A gente atendia os colonos por ordem de chegada. Só os Itimura (família tradicional do ramos agropecuário na região) tinha cerca de 500 famílias trabalhando nas lavouras de café, lembrou a comerciante em reportagem que o suplemento Folha Rural publicou no dia 8 de julho de 1995.
Agora, dona Aparecida diz que, de longe, é possível vislumbrar um fio de esperança. A cafeicultura está retornando para as propriedades rurais do lugar, com o estímulo ao plantio adensado por parte do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Mas a esperança ainda é um fio, conforme afirma a mulher. Até porque, sendo uma moradora antiga da Vila Esperança, eu sou obrigada a ter esperança num futuro melhor.
A cana-de-açúcar é a principal atividade da região. Sem corte de cana, a maioria dos moradores da vila ficam sem emprego. Na manhã de segunda-feira, uma chuva de cerca de 8 milímetros mal espantou a poeira. A soja, que ainda encontra fidelidade de alguns produtores rurais, precisava de muito mais. Como disse, no começo da tarde de terça-feira, o personagem da capa deste caderno: Se não chover em dois ou três dias isso tudo vai acabar, lamentou Antonio Cardoso, também morador da vila, observando com tristeza a lavoura.
Cardoso, que vive na localidade desde 1962, lamentou ainda a perda de quatro mil mudas de café e de uma plantação de milho, tudo do patrão. Naquela situação de tristeza, ele não tinha como fazer planos para o novo ano que se aproxima. Cardoso, aliás, ao menos podia planejar fazer uma compra de fim de ano na mercearia de dona Aparecida. Formava-se, assim, um círculo: o patrão perdendo lavouras preocupava o trabalhador, que sem como poder fazer compras criava angústia na dona da mercearia. E nada de bons projetos para o ano 2000, pelo menos enquanto a chuva não viesse em quantidade boa para as plantações.
O mesmo poderia ser dito de Nivaldo Jonas Coutinho, 53 anos, sete filhos e cinco netos. Ele trabalha como bóia-fria e na semana passada campeava emprego. Sem lavoura para fazer a capina, Nivaldo foi ajudar a mulher, Aparecida Gracia Coutinho, 49 anos, que tem uma ocupação graças a uma espécie de frente de trabalho implantada pela Prefeitura de Alvorada do Sul. Aparecida é uma das responsáveis pela limpeza diária da Avenida Emílio Solcia.
Nivaldo, como bóia-fria, consegue tirar de R$ 8,00 a R$ 9,00 de diária, mas isso quando há serviço. A mulher, pelo contrário, embora não sendo registrada como funcionária do Município tem na frente de trabalho uma renda fixa. A esperança de Nivaldo para o ano 2000 não poderia ser outra: muito trabalho na agricultura. Ele mora na Vila Esperança do Norte há cerca de 10 anos.
Mas há quem se obrigue a entregar a Deus o futuro. Talvez pelo fato de morar em um lugar que não se chama Vila Esperança. Quem sabe pela fé no Supremo. Ou, em casos extremos, por falta de perspectiva mesmo.
Enedino Bispo Fatel vai pela fé que tem em Deus. Com 72 anos de idades, mas pai de uma criança de apenas 9, a menina Daiane, Enedino frequenta a igreja Assembléia de Deus e está aposentado. Tem no total sete filhos e a esposa Aparecida Barufa Fatel está com 55 anos. Ele veio da Bahia e está no Norte do Paraná há 50 anos. Lá era um proprietário rural. Aqui sempre trabalhou como empregado.
Não tenho nada do que me queixar do passado e nem desse ano que se vai. Porque sempre estive trabalhando para salvar a alma. Quanto ao futuro, Enedino também se mostra otimista. Dizem que em toda passagem de milênio acontecem algumas coisas. Mas com a ajuda de Deus, que seja coisas boas. Enedino mora na localidade de Santa Margarida, em Bela Vista do Paraíso.
O futuro, para Valdecir Pereira dos Santos, 28 anos, é o minuto seguinte. Também de Santa Margarida, conhecida por abrigar um grande contingente de bóias-frias, Valdecir está sem trabalho. Mas fez uma fézinha no jogo, marcado por Gumercindo Nascimento, 58 anos, que recebe apostas. O bóia-fria jogou pouco, mas o sificiente para render um prêmio que valeria a comida de amanhã. E o ano 2000, para ambos, é um incógnita: Não tenho plano nenhum para o ano que vem. Só peço uma ajuda de Deus, disse Valdecir. A esperança nossa é a esperança de Deus, completou Gumercindo.O nome do lugar é promissor, mas a estiagem assusta os seus moradores e os planos para o ano 2000 dependem de uma boa chuva
Josoé de CarvalhoQUEBRANDO O GALHOSem emprego nas lavouras, Nivaldo Jonas Coutinho, 53 anos, morador da Vila Esperança do Norte, está ajudando a mulher que tem ocupação como trabalhadora de uma frente de trabalho da Prefeitura de Alvorada do Sul: tempos ruins, reclama eleJosoé de CarvalhoO recebedor de apostas Gumercindo Nascimento e o apostador Valdecir Pereira dos Santos: futuro depende da sorteJosoé de CarvalhoEnedino Bispo Fatel e a filha Daiane: fé em DeusJosoé de CarvalhoAparecida Solcia, de família pioneira da Vila Esperança do Norte: Café era o forte e agora está recomeçando





