Em vez de parto, aborto; o drama das mães que carregam bebês mortos na barriga, com orientação médica
No começo, é a surpresa, o encanto e a estranheza de saber que um novo ser começa a crescer dentro da própria barriga. Depois, os dias e meses vão passando e aquele ser vai virando gente, uma pequena pessoa que ganha um nome, um rostinho mil vezes idealizado na imaginação dos pais, enxoval, brinquedos e um mundo de sonhos e planos. A história termina com final feliz quando o bebê nasce e é aninhado nos braços ansiosos da mãe. A espera terminou. Mas às vezes essa história, tão comum, e sempre maravilhosa, não tem esse final feliz. O bebê morre antes de nascer, o parto se transforma num aborto. E num toque final de crueldade, muitas mães, órfãs de filhos, têm que suportar a espera transformada em pesadelo.
Dois abortos em menos de um ano. Duas semanas esperando para retirar um dos fetos, mesmo sabendo que estava morto. A situação traumática ocorreu com uma balconista que mora na Zona Norte de Londrina. Mesmo com a recomendação médica, ela conta que a experiência foi traumática, apesar de não ter sofrido nenhum tipo de complicação clínica.
Para esta mulher de 28 anos, o fator psicólogico foi tão complicado que até a impediu de trabalhar por algum tempo. ''No segundo aborto foi pior porque eu cheguei a levar a minha filha quando fui ouvir o coraçãozinho dele no ultra-som'', lamenta.
Além de perder o bebê, a jovem mãe teve que viver essa perda durante um longo período. Entre a morte do filho, ainda no útero, e a retirada do feto, foram cinco longas semanas. Nos últimos 15 dias, a gestante já sabia que o bebê que carregava na barriga estava morto. Durante esse tempo, a curiosidade natural de amigos e familiares a respeito da gestação, no caso dela, só servia para criar constrangimento e aumentar a dor.
''Eu amava o bebê desde o momento em que soube da gravidez. Quando a gente perde, parece que a vontade de ter um filho aumenta. Qualquer bebê que a gente olha já sente vontade que seja nosso'', comenta.
Segundo a mulher, a dor da mãe é maior do que a do pai porque as lembranças são constantes. O simples ato de olhar o braço marcado pela agulha do soro que tomou no hospital, durante o aborto, traz recordações da perda.
Os planos e sonhos, que toda mãe acalenta enquanto o bebê se desenvolve, tiveram que ser interrompidos.
De acordo com a jovem, a avaliação do médico da família a respeito dos dois abortos determinou mudanças no ritmo intenso de trabalho do casal.
Para tentar uma nova gravidez, agora ela tomou uma decisão radical: deve deixar o emprego, pelo menor durante um período, para levar uma vida mais tranquila e ter mais tempo para a convivência em família.
Mesmo destacando que confia totalmente no diagnóstico do médico e no acompanhamento que recebeu durante as duas gestações, ela lamentou não ter tido acompanhamento psicológico, que poderia ter ajudado a superar a dor da perda dos bebês.

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