A escolha de Luísa
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quarta-feira, 06 de março de 2002
Adriana De Cunto<br>Reportagem Local 
Londrina A saia verde desbotada chegava até o tornozelo e a camiseta de malha branca e decote largo nem escondia as alças do único sutiã. Luísa, uma mulher com pouco mais de 20 anos, caminhava com facilidade enquanto amamentava o filho menor, de seis meses. Ao redor dela, os outros três filhos, de 6, 3 e 2 anos.
Caminhavam devagar pela Rua Sergipe. Os chinelos de borracha expunham os pés encardidos e as unhas mal cortadas. Antes de descerem do ônibus, no Terminal, a mãe chegou a comentar com outra passageira que raramente vai ao centro. Tem medo de deixar sozinho o barraco onde mora, em um assentamento da zona oeste.
Minha vizinha saiu um dia e quando voltou os traficantes tinham levado tudo, contou.
Algo chamou a atenção da dona de casa. Nas vitrines da mais famosa rua de comércio popular de Londrina predominava a cor rosa. Vestidos, cortinas, tecidos. Tudo rosa. Pensou no barraco sem pintura e com poucos móveis. Um cartaz explicava o motivo, 8 de março é o Dia da Mulher. Como ela não sabia ler, a explicação passou batida.
Em uma farmácia, Luísa entrou com uma receita na mão e o dinheiro contado para o remédio do filho do meio. Comprou, pagou e pegou o pacote. Na saída, a surpresa da sua vida. Na Semana da Mulher, as clientes da farmácia têm direito a um brinde e uma promotora de vendas deu-lhe a opção: batom ou esmalte.
Ela nem se lembrava mais da última vez que usou um desses itens. Desde que os filhos nasceram, maquiagem é artigo de luxo no barraco. De repente, aquela moça bem maquiada e vestida lhe oferece a difícil opção: batom ou esmalte. Luísa olhou. Batom era rosa forte, mas o esmalte, rosa bem clarinho. Buscou coragem e disse:
Eu quero os dois.
Senhora, só pode um, sorriu a promotora de vendas sem avaliar o quanto a proposta significava para Luísa. Talvez porque a promotora, que se diz modelo, nem imagina que há na periferia da cidade mulheres que vivem sem esmalte ou batom.
Luísa pensou e sem nenhuma razão específica, escolheu o batom. Saiu em silêncio, parou em frente a uma vitrine e o experimentou. Sorriu, ajeitou o cabelo, puxou a saia para cima e escondeu as alças do sutiã. Novamente, não pôde ler o cartaz que reivindicava direitos iguais para homens e mulheres.
Na rua, as crianças pediam peito, água, sorvete. Luísa sorria. Nem se preocupava mais com o barraco sozinho, na favela.


