Quando o sol começa a mostrar seus primeiros raios da manhã, o corre-corre já é grande nos terminais do transporte urbano de Londrina. Em torno de 80 mil pessoas, de acordo com dados da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), dependem dos ônibus que circulam pela cidade para chegar ao trabalho. A grande maioria dessa massa é de trabalhadores, gente que depende dos coletivos para ir até o local de serviço e cumprir a carga horária de cada dia.
Porém, parte da energia do trabalhador, que hoje comemora o seu dia, fica no ônibus. Não faltam queixas de usuários que dizem chegar cansados ao serviço depois de enfrentar uma viagem em pé em coletivos pra lá de lotados. A reportagem da FOLHA embarcou em ônibus que circulam pela cidade nos horários de pico e comprovou: dá para comparar com uma lata de sardinha. Uma placa dentro do veículo revela que em torno de uma centena de pessoas estão espremidas ali. Passageiros sentados: 34; passageiros em pé: 61.
Há até dificuldades para fechar as portas por conta da superlotação. No Terminal Central é necessário que fiscais monitorem a quantidade de pessoas, que acabam se acomodando nas escadas dos coletivos. É preciso apertar bastante para que as portas possam ser fechadas.
''A condução para o trabalho de forma inadequada cria um desperdício de energia física e psíquica. O correto é que o trabalhador siga com conforto até o seu local de serviço. Já atendi pessoas que reclamavam de dor no ombro por ter que ficar em pé no ônibus'', ressalta o médico do trabalho Ricardo Sahão, que atesta que o trabalhador deixa parte de sua energia produtiva pelo caminho quando ''viaja'' em condições adversas. ''Com isso, as pessoas chegam ao serviço fadigadas mentalmente, menos dispostas, e qualquer acontecimento banal pode ser o estopim para uma 'explosão''', complementa o médico.
A empregada doméstica Dirce Marques, 58 anos, é um exemplo do trabalhador brasileiro, que 'rala' bastante, empurrando o País para frente. Desde os sete anos de idade que ela, a oitava de 17 irmãos, sabe o que é labutar. ''Desde que comecei a trabalhar, nunca mais parei'', comenta. Moradora do Jardim Parigot (Zona Norte de Londrina), ela sai de casa às 6h20 e encara mais de uma hora de ônibus até a casa da família para a qual trabalha, em um bairro da Zona Leste. ''Cansa muito. A lotação é grande, principalmente de manhã. Há dias que eu não consigo sentar, aí é mais difícil ainda. Mas preciso trabalhar e sigo adiante'', comenta.
Outro que gasta parte de suas forças no caminho é o agricultor Nelson Rodrigues Tavares, 75. Morador de Cambé, ele toma conta de três alqueires de terra - ocupados com café e soja - em Rolândia. Pula da cama de madrugada, às 4h40, para fazer café, ajeitar a marmita e não perder o ônibus metropolitano que parte às 6h25. Embarca e segue até a localidade conhecida por Km 9. Dali ainda caminha mais 4 km até o serviço.
''Tudo isso cansa, mas levo um cafezinho caprichado que me revigora. Agradeço a Deus pela saúde e pela coragem que tenho para trabalhar'', ameniza Tavares, que além do café, renova as energias com a polenta caprichada que leva na marmita.
De acordo com o diretor de transporte coletivo da CMTU, Wilson de Jesus, a companhia procura constatar por meio de fiscais e de reclamações de usuários quais são as linhas que estão sobrecarregadas. ''Quando constatamos que há a superlotação, temos o dever de colocar mais um carro. A legislação municipal fala em até sete pessoas por metro quadrado no ônibus, mas nós trabalhamos com uma norma ainda mais rigorosa, a da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que prevê seis pessoas por metro quadrado'', explica.
Serviço: O telefone da CMTU para o usuário registrar reclamações sobre ônibus superlotados é (43) 3356-5252.

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