Paulo Ubiratan
Doutor em ecologia e ecossistemas urbanos defende a necessidade do surgimento de um homem mais humano e menos tecnológico, que tenha sobretudo consciência sobre o seu consumo
Em menos de 10 anos todo o sistema sustentável da Terra estará comprometido. O alerta é feito pelo mestre em ecologia humana e doutor em ecologia e ecossistemas urbanos, Genebaldo Freire Dias, 50 anos. Formado em ciências biológicas pela Universidade de Brasília e atualmente professor e pesquisador da Universidade Católica de Brasília, Freire Dias têm percorrido o Brasil para debater uma nova conceituação para tratar da ecologia: a ‘‘pegada ecológica’’.
Trata-se, segundo Freire Dias, de analisar o quanto um ser humano consome a mais do que a comunidade onde ele vive produz de recursos naturais e matéria-prima. Para complementar o consumo, esse ser humano depende de outras comunidades.
Em abril do ano que vem, Freire Dias, que esteve recentemente em Londrina para uma palestra, lançará um livro sobre o tema. A obra é fruto de pesquisas feitas na Universidade Católica de Brasília e ressalta a importância do papel de cada homem na busca de um novo estilo de vida, mais compatível com a sustentabilidade da vida na Terra. Uma das bases da mudança apregoada por ele é o surgimento de pessoas mais humana e menos tecnológica, conforme disse em entrevista à Folha.
Folha – O senhor tem proferido palestras pelo Brasil sobre ‘‘Ecossistemas Urbanos’’. Do que realmente este tema trata?
Freire – São as cidades em relação aos ecossistemas sócio-ambientais. São áreas que possuem uma demanda muito grande de recursos naturais e, por consequência, tem um poder de impor maior degradação ambiental. Estas comunidades também impõem um consumo maior de recursos naturais, de matéria-prima como eletricidade e água, por exemplo.
Folha – O senhor tem um trabalho profundo sobre este tema nas cidades satélites de Brasília. Neste trabalho é lançada uma novidade no mundo científico, que o senhor chama de ‘‘pegada ecológica’’.
Freire – A ‘‘pegada ecológica’’ é a determinação simbólica da pegada que o indivíduo deixa no chão para sobreviver. Trata-se da área natural que a pessoa precisa para sustentar o seu consumo. Isso varia conforme os padrões de consumo das sociedades. Neste estudo podemos saber quanto os indivíduos consomen de madeira, combustível, água, energia elétrica, papel e carne bovina.
Folha – Por que, especificamente, a carne bovina?
Freire – Porque em relação ao que o cidadão consome do produto, a gente pode apurar quanto de área natural seria necessária somente para sustentar o consumo dele.
Folha – No caso de cidades satélite de Brasília, onde o senhor desenvolveu pesquisa, o que foi possível apurar em relação à pegada ecológica?
Freire – Vamos pegar como exemplo a cidade satélite de Tabatinga, com 123 mil habitantes. Somando-se todas as carências que já especificamos (papel, eletricidade, carne, etc.), cada morador daquela cidade precisa, anualmente, de 3 hectares de área natural para viver.
Folha – Quer dizer que o tabatinguense urbano se apropria de outras áreas, fora de seu habitat?
Freire – Isso mesmo. Os tabatinguenses têm déficit de espaço e se apropriam de outras áreas. Eles utilizam áreas de outras regiões, de outras cidades. Por exemplo, para se sustentar de carne o morador de Tabatinga pega áreas no interior de Mato Grosso, onde pastam os bois cuja carne deverá ser consumida pelo tabatinguense. Estas cidades são centros emanadores de consumo e terminam criando áreas de impacto ecológico que vão se sobrepondo. É triste eu dizer, mas o estudo global que temos, da Organização da Nações Unidas (ONU), mostra que já estamos precisando de um planeta 30% maior que a Terra.
Folha – Nesta circunstância, como é que fica a Floresta Amazônica como pulmão do mundo?
Freire – Dizer que a Amazônia é o pulmão da Terra não tem nenhum respaldo científico atualmente. O que a floresta produz de oxigênio ela mesma consome. A Amazônia pode funcionar como equalizador de recursos hídricos global. Apenas isso, em relação a reservas naturais emergentes.
Folha – E as pressões que o Brasil sofre de países do Primeiro Mundo, impondo a preservação da Amazônia?
Freire – É um discurso ultrapassado. Esta cobrança apenas faz parte dos poderesos diante dos países menos poderosos. Nós sabemos que hoje se discute dois grandes problemas do mundo mesclados por um terceiro problema. Trata-se do cresciomento populacional e os padrões de consumo. Estes dois problemas são explosivos e vem acompanhados com o amálgama da corrupção. A corrupção é a causadora da maioria dos males que nós temos hoje em nossa sociedade, a começar pela injustiça social e a violência que afetam diretamente nossa qualidade de vida ambiental. E tudo isso sustentado pela falta de ética de uma minoria dominadora.
Folha – A nova conceituação que o senhor apregoa corresponde que a moral social está intimamente ligada ao sistema ambiental?
Freire – Perfeitamente. Devemos buscar no ambiente ideal tudo que leve o ser humano a viver bem, com dignidade.
Folha – O que o senhor poderia citar como corrupção no setor ambiental?
Freire – São milhares neste setor. A que traduziu-se como a mais dramática ocorreu em uma província da Índia, onde morreram mais de 2 mil pessoas. O acidente foi motivado por um vazamento de gás venenosos de uma fábrica da multinacional Union Carbide. A fábrica iria se instalar no Vale do Paraíba, em São Paulo. Entretando, ações de movimentos ambientalistas condicionaram sua instalação com medidas de proteção muito rigorosas e de custo muito alto. Diante do impasse, a Union Carbide conseguiu do governo indiano a instalação naquele país nos moldes do projeto original, sem nenhuma segurança ambiental.
Folha – Quanto à ‘‘pegada ecológica’’ em relação aos países ricos?
Freire – Quando se trata de povos ricos eles tem mais necessidade de espaço porque consomem mais. As pegadas ecológicas deles são altas. Por exemplo, os habitantes dos Estados Unidos e do Japão necessitam de 5 a 6 hectares por ano para tirar seus sustentos, enquanto que o indiano necessita de apenas 0,8 hectare. As pegadas ecológicas dos moradores de Londres invadem quase 20% do território da Escócia e da Irlanda.
Folha – Existe, portanto, a necessidade de reduzir o consumo?
Freire – Não tenho dúvidas que devemos baixar o consumo. Repito que para realmente atingir o desenvolvimento sustentável, vamos ter mesmo que reduzir o consumo.
Folha – O senhor acha que é possível reduzir o consumo quando a própria economia global diz para fazermos o contrário?
Freire – áÉ ai que está o grande desafio para os próximos 10 anos. Se não buscarmos resolver este problema, teremos graves problemas de fome no mundo.
Folha – Se existe problema com os países ricos que consomem muito, como ficam os países pobres que não consomem quase nada?
Freire – Teremos de chegar a um patamar em que alguém deva reduzir o consumo para outros povos aumentarem o consumo. Em se tratando de povos do Terceiro Mundo é determinante que seja aumentado o consumo calórico de sua gente que se encontra em situação de desgraça.
Folha – Como seria possível isso acontecer, a começar pela democrática filosofia da autodeterminação dos povos. Como históricamente sabemos, infelizmente não possuímos este desprendimento de formalizar idéias para o bem comum, antes de resolvermos os nossos problemas?
Freire – Contra isso teremos que implantar o governo global que está sendo discutido, conhecido como meritocracia. Seria um novo padrão político mundial, que viria substituir esta democracia que vivemos, que não responde mais para as nossas necessidades de mundo. Posso garantir que este molde tradicional de economia global deverá ser totalmente mudado. O que está atualmente sendo gerido pelos cientistas de relações trasnacionais são novos modelos de conselhos globais. Eles são pessoas de méritos e deverão buscar soluções. Não temos outra saída a não ser esta que virá.
Folha – Pensando em Brasil como país de Terceiro Mundo, deveremos mergulhar de cabeça no que os cientistas acharem que é bom para nós?
Freire – O Brasil não é Terceiro Mundo porque possui o oitavo PIB da terra. O que temos, isto sim, é uma péssima distribuição de renda e aí ficamos em 69º lugar entre os países pobres. A questão não é se os Estados Unidos vão levar vantagem. Isso independe da vontade de ‘‘Tio San’’ e de qualquer outro país com poder econômico. O Brasil possui outros fatores impondo transformações. Temos em nossa cara o desemprego, a violência graçando, o descontrole étnico acontecendo em muitas nações. E diante disso temos um quadro sócio-econômico caminhando para um stress.
Folha – Este stress deverá acontecer em breve?
Freire – Os estudiosos em globalização acreditam que este stress do sistema financeiro internacional deverá acontecer em menos de cinco anos. É este stress que será a peça fundamental para as mudanças, pois os povos começam a expressar que estão no seu ponto limite de suportação.
Folha – áo que entraria nesse limite?
Freire – Uma série de coisas estão levando ao stress, inclusive, como já disse, pela falta de ética e a corrupção. No ano passado a Organização Mundial de Saúde (OMS) expediu um documento expondo que a doença mais mata pessoas no mundo hoje é o stress. Isso quer dizer que o meio em que as pessoas vivem estão ruins. Este meio não é somente o ambiente ecológico, mas também o ambientes social, tecnológico e político. Repito que existirão mudanças radicais nestes próximos cinco anos. Mudanças que serão feitas por idéias, apesar de serem revolucionárias nos seus contextos. Vamos buscar novos valores e resgatar outros para tornar a espécie humana mais humana. menos corrupta e mais feliz. No meu livro que em abril do próximo ano lançarei aqui em Londrina escrevo bastante sobre isso.

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