Josoé de CarvalhoPersistênciaCarina de Souza, aluna de Ciência Sociais: ‘Muitas pessoas viam a minha situação e diziam: se eu fosse você, já teria desistido’Quando chegou em Londrina, há pouco mais de três anos, Carina de Souza trazia na mala algumas roupas e na cabeça o sonho: estudar e garantir um lugar ao Sol. Ela havia passado no vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e começava o curso de Ciências Sociais. Longe de casa (veio de Curitiba), com pouco dinheiro e enfrentando uma nova vida, Carina buscou logo alternativas para gastar o menos possível. E enfrentou momentos muito difíceis.
‘‘Cheguei até a passar fome’’, contou. O dinheiro era pouco, oportunidade de emprego nenhuma. ‘‘Estudava no período da manhã, fui atrás de empregos compatíveis com minha carga horária. Não consegui. Passei diversos dias a pão e água, literalmente’’. Carina contou também que para estudar abriu mão de muitas coisas. ‘‘Aperto o cinto onde posso. Já cheguei a tomar banho e lavar a cabeça com sabão.’’
Produtos de consumo prioritários, sempre os mais baratos. ‘‘Roupas, nem pensar. Até o papel higiênico tem que ser o mais barato’’. Para economizar ainda mais, Carina até hoje não usa ônibus. Todos os dias vai até a rua Humaitá, um dos acessos à UEL, e pede carona. Para Curitiba ela não vai há três meses. ‘‘Preciso economizar, porque cursar a universidade também tem gastos, como xérox e livros.’’
Para se garantir em Londrina, Carina passou a fazer ‘‘bicos’’. Trabalhou como pesquisadora para a Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel) e hoje faz o mesmo trabalho para a empresa Canadá Pesquisas. Conseguiu uma vaga na Casa do Estudante e parou de pagar aluguel. Atualmente, vive com R$ 30,00 por mês - valor que recebe das pesquisas que faz aos finais de semana. ‘‘Para quem fez milagre, minha vida agora está boa.’’
Além das dificuldades financeiras, a insegurança e desconforto de estar longe de casa e da família ‘‘pesam muito’’. Carina contou que, apesar de ter vindo de uma cidade maior que Londrina, tinha muito medo de se perder. ‘‘Tinha muita saudade de casa e abdiquei de muitas coisas para poder estudar.’’
Paulo WolfgangVida difícilSílvio Cauduia, aluno de Ciências Econômicas: ‘‘Trabalho para poder estudar e estudo para encontrar um trabalho melhor. Estou num círculo vicioso’’
Hoje, Carina tem 27 anos e está cursando o 4º ano de Ciências Sociais. Ela acredita que todos os sacrifícios estão valendo a pena. ‘‘Muitas pessoas viam a minha situação e diziam: se eu fosse você, já teria desistido. Mas eu vim para estudar. Para aproveitar essa oportunidade, todos os esforços são válidos’’, argumentou. E é essa vontade de exercer a profissão que gosta que faz Carina dedicar seis horas diárias às leituras, fazer os estágios curriculares durante o dia, frequentar as aulas à noite e, nos finais de semana, trabalhar. ‘‘Às vezes, as pesquisas da Canadá são feitas em outras cidades, viajamos de manhã e voltamos à noite’’.
No próximo ano, Carina se forma. Ela diz ter consciência das novas dificuldades que vai enfrentar, principalmente a escassez de empregos no campo de trabalho que escolheu. Mas, para ela, o diploma terá um gostinho especial de vitória e recompensa. ‘‘Já trabalhei muito. Antes de cursar a universidade fui recepcionista e secretária. Formada, vou ter a possibilidade de fazer o que gosto. E, pela minha experiência, sei que as pessoas que têm um curso universitário são mais valorizadas’’.
A história de Carina de Souza não é única. Diversos alunos da Universidade Estadual de Londrina passam por situações parecidas e até mais dramáticas. São pessoas que lutam por um sonho e por isso acarretam dupla responsabilidade: estudar e trabalhar. ‘‘Bicos’’, trabalhos como baby-sitter, estágios remunerados, bolsas de estudo, venda de lanches, produzir adesivos, dar aulas, vale tudo para garantir uns ‘‘trocos’’.
A chefe da Divisão de Serviço Social do Núcleo de Bem-Estar da Comunidade da UEL (Nubec), Lúcia Helena Machado do Carmo, explicou que o número de estudantes carentes na UEL é grande e que tem aumentado significativamente nos últimos anos. Ela contou que uma boa parte desses alunos procura o Núcleo na busca de uma solução para o problema. ‘‘Presenciamos situações muito difíceis. São pessoas que chegam a Londrina sem nada.’’
Lúcia do Carmo relatou o caso de três estudantes que não tinham onde morar e nem condições financeiras para sobreviver. A solução encontrada pelo Nubec foi propor a troca de serviços domésticos por moradia. ‘‘Encaminhamos esses alunos para repúblicas, e eles trabalhavam na casa em troca de moradia e alimentação.’’ Dois desses alunos já se formaram, um ainda estuda e agora mora na Casa do Estudante, mas diz não querer lembrar da fase que passou.
O Nubec oferece também programas de encaminhamento ao trabalho. Um deles é o treinamento de baby-sitter (pessoa que cuida de crianças ou bebês por poucas horas). ‘‘Temos 30 estudantes do sexo feminino treinadas e que prestam esse tipo de serviço’’, explicou Lúcia do Carmo. Ela contou que a maioria dessas alunas fazem cursos de período integral. As baby-sitter trabalham principalmente à noite e nos finais de semana. Recebem R$ 3,00 por hora.
O Nubec também seleciona estudantes para trabalhar como monitores nas colônias de férias oferecidas pela UEL para filhos de funcionários e outras crianças. O pagamento, nesse caso, é de um salário mínimo por dez dias de trabalho. O Núcleo oferece também atendimento médico e odontológico. Em 96, os atendimentos sociais do Nubec chegaram a 3,2 mil. As consultas médicas a estudantes chegaram a 5,5 mil. ‘‘No total, desenvolvemos 18 projetos de apoio e assistência ao estudante da UEL’’, informou o diretor do Nubec, Oswaldo Yokota.
Outra atribuição do Núcleo é a seleção de estudantes para a Casa do Estudante da UEL (Ceuel). Segundo Lúcia do Carmo, têm acesso à Casa, que pertence à universidade, os alunos que comprovadamente não possuem condições de se manter em Londrina. ‘‘Os principais critérios são renda familiar inferior a 1,5 salário mínimo, e a família não possuir imóvel.’’
Hoje, 60 estudantes moram na Ceuel. Segundo o presidente da Casa, Marco Aurélio Dinhane, os moradores por enquanto não têm gastos. Ele explicou que a manutenção da Casa é atribuição dos moradores, mas o aluguel do espaço onde funcionava o Restaurante Universitário (RU) e as placas de publicidade nos muros da Casa estão rendendo o suficiente para cobrir os gastos.
Marco Aurélio contou que 50% dos moradores estão trabalhando. ‘‘O único gasto que temos é com alimentação. A cada 15 dias, eles participam da cozinha comunitária e pagam uma taxa de R$ 15,00. A participação é opcional’’, afirmou.
As dificuldades financeiras não são exclusivas dos alunos provenientes de outras cidades. Na realidade, a crise é geral e reflete a própria situação sócio-econômica do País. Muitos londrinenses, que correspondem a cerca de 50% dos alunos da UEL, têm que driblar os problemas para poder continuar estudando na universidade. Exemplo disso é o estudante do 10º período (5º ano) de Ciências Econômicas, Sílvio Cesar Cauduia, 28 anos.
Atualmente, Sílvio trabalha na Receita Estadual, durante oito horas por dia. À noite ele estuda. ‘‘Não é fácil’’, desabafou. ‘‘Tenho muitos trabalhos e provas na universidade. Quando não estou trabalhando, estou estudando, mesmo nos finais de semana. É muito cansativo’’. Mas, para ele os esforços são necessários. ‘‘Trabalho para poder estudar e estudo para poder me profissionalizar e encontrar um trabalho melhor. Estou num círculo vicioso’’, observou.
Até no início deste mês, Sílvio trabalhava em um escritório de contabilidade. O emprego na Receita Estadual foi viabilizado através de um programa do Nubec e da Comissão Permanente de Apoio a Alunos Portadores de Necessidades Especiais (Code).
Sílvio enfrenta também uma outra dificuldade. Ele tem sérios problemas visuais. A visão está bastante reduzida devido à catarata e à miopia. ‘‘O meu campo de trabalho acaba limitado, realizo alguns trabalhos de forma mais lenta que uma pessoa sem problema. Muitas pessoas não compreendem.’’

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