Curitiba - Anos atrás, enfrentar a estrada não era desafio para Hamilton Teixeira. Caminhoneiro experiente, desbravou longos caminhos do Brasil na boléia de um caminhão. Hoje, porém, fazer o trajeto entre sua casa em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), até a Capital tornou-se mais complicado. Aos 69 anos, o ex-caminhoneiro sofre de problemas renais e precisa deslocar-se até o Hospital Cajuru para fazer hemodiálise.
Há seis anos, a rotina é a mesma. Teixeira precisa vir a Curitiba três vezes por semana para que uma máquina assuma o lugar de seus rins, que já não funcionam mais. Durante quatro horas, o sangue do aposentado é retirado do seu corpo, filtrado e devolvido sem as impurezas prejudiciais à saúde -substâncias como a uréia, o potássio de sódio e a creatinina. ''É cansativo, dói quando a agulha entra, mas é nosso remédio. Se não fosse a hemodiálise, eu já estaria morto'', avalia Teixeira.
Ele é apenas um dos mais de 40 mil brasileiros que sofrem de doenças renais e precisam passar constantemente pelo processo da diálise para sobreviver. Toda essa parcela da população tem problemas crônicos nos rins que são incuráveis. Na região Sul, são 6.394 pessoas que passam por esse processo, ou 15,4% do total. Para atender os pacientes, a maioria pelo Sistema Único de Saúde (SUS), existem 310 unidades de saúde espalhadas pelo Brasil. Os números são da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).
Os rins são duas pequenas máquinas que funcionam filtrando o sangue e os líquidos do corpo. Se algum problema acontece no órgão, a vítima não percebe. É aí que mora o perigo. ''A doença de rim é silenciosa. Quando os sintomas aparecem -entre eles a diabetes descontrolada, inchaço, mudança na cor da urina- já é preciso fazer a diálise'', explica Anelise Marcolin, gerente-geral da Pró-Renal, instituição filantrópica de Curitiba que atende pacientes com problemas renais do Brasil inteiro. Ao todo, são 2 mil pessoas por mês, em estágios diferentes da doença.
O silêncio da enfermidade atingiu em cheio o paciente Fernando Henrique Miranda Galindo, 89. Nove anos atrás, ele passava o final de ano na praia quando se sentiu mal. Voltou para Curitiba junto com a mulher, Rosa, para procurar um médico. Como era hipertenso, foi a um cardiologista. Fez todos os exames necessários. O médico disse que ele estava bem. Como o mal-estar permanecia, decidiram procurar outra opinião. O diagnóstico foi o mesmo: saudável. Em uma terceira consulta, a descoberta: o nível de creatinina no organismo do aposentado estava alto.
A creatinina é a substância usada para monitorar a saúde dos rins. Tanto é que o exame de sangue que revela o nível da creatina no corpo é indicado pelos médicos como a forma mais eficaz de apresentar problemas renais. Foi o que aconteceu com Fernando Henrique. Quando finalmente descobriu as causas de sua sensação de doença, a hemodiálise era inevitável. Os rins do aposentado trabalhavam com apenas 11% de sua capacidade. ''Senti vontade de bater no médico'', diz Rosa Galindo, de 82, esposa de Fernando e grande apoio para tratar a doença.
Quando descoberta, a rotina do casal se transformou. O primeiro passo foi mudar a alimentação, que nos primeiros anos evitou que ele precisasse da hemodiálise. Retardada ao máximo, esta se fez necessária há quase dois anos. ''Quando ele começou a fazer a hemodiálise não foi tão difícil, porque nosso neto nos levava. Quando íamos de ônibus, era preciso pegar duas conduções. Mas nós aceitamos o problema. Se é preciso tratar, vamos tratar. Então ele começou a melhorar'', diz Rosa, sobre a rotina ao lado do marido, que realiza hoje a diálise peritoneal (feita pelo abdome, não pelo sangue, como a hemodiálise) durante quatro horas em dois dias da semana.
A diálise peritoneal é tida como o futuro do tratamento, já que pode ser feita em casa, até durante o sono. Dessa forma, a rotina do tratamento torna-se menos cansativa para quem sofre de problemas renais.


Cuidados com a saúde

- As duas maiores causas de problemas renais são a hipertensão e a diabetes. A pressão alta danifica os rins porque, sem o controle desta, os vasos sanguíneos tornam-se rígidos e espessos. Dessa forma, a função renal torna-se insuficiente porque há uma redução na irrigação sanguínea. Os rins ficam incapazes de filtrar produtos nocivos para o corpo, que passa a reter sal e armazenar líquidos.

- Para evitar a hipertensão, é preciso alguns cuidados especiais, como perda de peso, redução da ingestão de sal, evitar consumo de fumo e álcool e realização de exercícios físicos.

- Já a diabetes compromete o funcionamento de vários órgãos do corpo, entre eles os rins. Nestes, a doença age diminuindo lenta e progressivamente a função renal. O processo é irreversível, podendo chegar até a uma insuficiêncial renal crônica.

- Para evitar problemas renais, o controle da pressão arterial e da diabetes é essencial.

- O nível de creatinina, substância que regula o funcionamento dos rins, é feito por meio de um simples exame de sangue, pago pelo SUS.

Fonte: Fundação Pró-Renal

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