'A droga dá dinheiro. Mas é só ilusão'
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domingo, 10 de janeiro de 1999
Lúcio Horta 
Pedro (nome fictício) tinha tudo para levar uma vida normal. Andava com amigos, jogava futebol, não saía da frente da tevê e ia à escola. Nem mesmo a separação dos pais, há mais ou menos seis anos, foi problemática: eles continuaram amigos e o garoto, morando com a mãe, sempre teve próximo a figura paterna.
Mas o rapaz deixou a escola quando ainda estava na 4ª série e não quis mais saber de estudar. E o pior: aos 13 anos, começou a andar com garotos que usavam drogas. Ao contrário da grande maioria dos colegas, Pedro não se interessou pelo consumo. Mas viu na droga uma possibilidade real de ganhar dinheiro fácil.
A minha viagem era outra. Vi o movimento da droga, vi que dava dinheiro, e comecei a vender. Fiquei fascinado. Então pegava a pedra, amassava e vendia. Pagava por um tanto e fazia outro tanto, diz. E gastava tudo que ganhava com roupas, mulherada. Tudo que vem fácil vai fácil.
Pedro comercializava a pasta base. Ele pegava a droga do irmão de um amigo, que tinha uma boca de fumo dentro de casa. Começou com cinco gramas - pagando cerca de R$ 10,00 a grama -, mas no final chegou a pegar 300 gramas de uma só vez, com lucro de até 100%. Ficou conhecido entre os consumidores. Vender é fácil, sentencia.
O adolescente conta que, além do dinheiro, era comum o viciado oferecer objetos para pegar a droga. Eram desde bonés, camisas, relógios até tênis da moda. Muitos desses objetos eram resultados de pequenos furtos. Tinha gente que, no desespero, trocava tudo pela droga. Trocava o que tivesse, diz. Ele acrescenta: Também tem muita gente que compra que é ladrão, assaltante de banco, e usava o dinheiro do assalto. Era comum. Mas na verdade tinha de tudo: pobre, rico, ladrão.
Depois de um ano traficando, Pedro caiu, como se diz na gíria do meio para quem é preso. Foi apreendido no final de dezembro e passou o Natal e o Ano Novo internado no Ciaddi. Eles (os policiais) já me conheciam. Não pegavam porque se você não está com a droga não é flagrante. Já tinha sido revistado antes mas não estava com a droga, conta.
A opção pelo tráfico, segundo ele, não agradou a família. Principalmente quando traficantes e viciados iam procurá-lo em casa. Minha mãe ficava desesperada. Mentia para ela, dizia que eram amigos. Mas ela não acreditava, diz.
Agora que foi apreendido, Pedro planeja sair do Ciaadi e abandonar o tráfico. Garante que está arrependido e promete que vai voltar a estudar e arrumar um emprego. Não quero mais voltar para cá. A droga dá dinheiro mas não compensa, é ilusão. Não é legal ficar sempre corrido da polícia.


