A volta do supermercado a pé, com a família, seria apenas rotina para o açougueiro Ricardo Santos de Moraes, 25 anos. Uma tragédia, no entanto, transformou a vida do jovem. Em uma noite de domingo, dia 7 de junho, ele, a esposa e a filha foram atingidos por um caminhão-guincho às margens da Rodovia Carlos João Strass, na Zona Norte de Londrina. Ambas não resistiram aos ferimentos e morreram no local. Ele passou pela Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Evangélico, foi liberado e espera voltar a andar em dois meses.

As dores na perna quebrada não são as únicas de Moraes. As piores são a indignação contra o motorista do veículo que os atingiu - que não parou para prestar socorro - e a saudade da companheira Jacqueline da Silva, 23, e da filha Ana Beatriz, 2. Morando temporariamente na casa dos pais, em Assaí (Norte), o jovem conta que a única lembrança que tem da noite do desastre é a ida ao mercado. E que o principal sentimento hoje é a vontade de que justiça seja feita.

''Conversei e ele não ofereceu ajuda nenhuma à família. Só queria que ele passasse pela dor que eu estou sentindo agora'', declara. Soares refere-se a Nelson Cardoso, 43, que conduzia o caminhão-guincho que atropelou a família. O motorista foi indiciado por duplo homicídio culposo, omissão de socorro e tentativa de fraude processual, por ter jogado, propositalmente, o veículo contra uma árvore com o suposto intuito de dificultar as investigações.

O atropelamento ocorreu na véspera do dia em que o açougueiro levaria a carteira de trabalho ao novo emprego, em que estava em período de experiência. Por estar sem registro, ele ainda não sabe os direitos que terá para manter-se enquanto não puder trabalhar.

Feliz demais -

''A Jacqueline gostava de cantar com as crianças. Era bem querida. Ela era feliz demais.'' A afirmação é da faxineira Maria Betânia da Silva Novaes, 44 anos, mãe e avó das vítimas. Ela ainda tenta assimilar a dor da perda e lamenta, principalmente, o fato do motorista não ter parado no local. ''Se ele tivesse parado, às vezes poderia ter salvo uma vida'', assevera. Ela e o marido Demeval Vicente de Novaes, 44, admitem que o local é perigoso. No entanto, acreditam que o risco é consequência do excesso de velocidade dos veículos e não da falta de calçada, até porque há um gramado no local.

De acordo com Maria Betânia, a filha e o genro faziam planos para casar logo. ''O sonho dela era ter uma casa e ela já estava pensando nisso'', lamenta a mãe da vítima. O casal, que havia perdido uma filha com leucemia há seis anos, ressalta ainda a falta que a filha mais nova deles, de cinco anos, tem sentido de Jacqueline e de Ana Beatriz. ''Era uma criança que aprontava, que chegava aqui em casa e já ia abrindo a geladeira, mexendo em tudo. Era uma criança bem feliz'', relembra a avó.

Apesar da dor, Novaes não quis opinar sobre a punição justa para o homem que atropelou e matou a filha e a neta dele. ''Vou ter que confiar na Justiça. Não posso fazer nada'', diz. E Maria Betânia completa: ''Desejo que ele seja feliz, peça perdão a Deus e que dirija bem. E se acontecer de atropelar alguém de novo, que pare para socorrer.''

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