A dor carregada de solidariedade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Ainda sem muitas palavras, Maria Leida Moreira, de 68 anos, explica que a atitude do cachorrinho Bilú reflete bem a tristeza que tomou conta de sua casa, após a morte de sua filha Maria Aldemira Moreira, de 40 anos. ''Bilú escuta o barulho do portão e corre achando que é a Maria chegando em casa, pois ele era o xodó dela. A dor ainda é muito forte para toda a família'', explica Leida, como prefere ser chamada.
Abalada com a morte da filha, que morava nos fundos da casa, Leida diz que encontra nas lembranças o conforto para a perda e, com amor de mãe, descreve o jeito cativante de Maria. ''Minha filha era uma pessoa bacana demais. Estava sempre alegre, sorridente e não tinha boca para ofender ninguém. Mas junto com a tristeza, eu digo que existe um pouco de alegria por saber que fiz a vontade dela'', conta.
A atitude de se tornar uma doadora de órgãos era uma questão de honra para Maria, que após ter um acidente vascular cerebral, não resistiu a uma parada cardíaca e morreu no último sábado de manhã. ''A gente já havia conversado sobre o assunto e ela (Maria) sempre dizia que gostaria que seus órgãos fossem doados. Por isso, quando o enfermeiro veio falar comigo, não tive dúvidas. Autorizei a doação na hora. E minha palavra ninguém discute aqui em casa'', afirma Leida, que tem outros seis filhos.
O enfermeiro e coordenador intra-hospitalar de transplante do Hospital Universitário (HU) de Londrina, Hélio Figueiredo diz que devido à gravidade do caso de Maria, já havia conversado com a família sobre a possibilidade de doação. E com a autorização de Leida foi possível realizar uma doação múltipla de órgãos. ''Foram doados o coração para válvulas cardíacas, as córneas, escléras e os ossos. Essa, foi a maior doação de ossos deste ano, em toda a região Norte do Paraná'', diz.
Segundo ele, os ossos foram retirados pela Associação do Banco de Tecido Músculo Esquelético (ABTME) de Curitiba, mas ainda não há informações sobre os possíveis receptores, tanto dos ossos quanto dos demais órgãos.
Mas conhecer as pessoas que receberão os órgãos de sua filha é uma questão de honra para Leida. ''Quero ter a felicidade desse momento, pois acredito que vou ver um pouco da Maria neles'', conta a mãe, enquanto afaga Bilú no colo.
Para ela, a atitude de doar é a maior gratidão que um ser humano pode ter. ''A gente fica triste, mas ao mesmo tempo é uma glória sabermos que outras pessoas estão tendo uma chance de viver melhor. Já pensou em quantas pessoas não vêem a claridade do dia, como a gente? Tenho certeza que essa atitude vai levar a felicidade para muitas pessoas'', ressalta.
No final da entrevista, Leida também fez questão de justificar porque decidiu revelar a atitude da doação. ''Espero que ao verem esta reportagem outras pessoas se inspirem e pensem o quanto é bom ser doador. Esse é um bom exemplo a ser seguido'', diz.


