‘Para os pajés, uma doença nunca começa no corpo físico. Este, na verdade, é uma casa viva dada pela natureza e habitada por um ser chamado de avá (equivalente à alma na cultura ocidental). É no seu ser íntimo, na qualidade dos pensamentos, dos sentimentos, das emoções, que as doenças e os desequilíbrios são gerados.’’ Esse entendimento que as sociedades indígenas têm da doença e da cura é um dos aspectos que o índio Kaká Werá Jecupé, 42, luta para manter vivo através dos livros que escreve e das palestras, cursos, seminários e vivências que ministra por todo o País.
  No último final de semana, Kaká Werá esteve em Londrina para falar sobre a ‘‘medicina sagrada dos pajés’’, a convite da unidade local da Universidade Internacional da Paz (Unipaz). O índio, que tem origem familiar tapuia mas foi criado por guaranis, explica que sua busca é abordar o surgimento e a aplicação de uma medicina indígena que se desenvolveu alicerçada na sabedoria obtida junto à natureza e nos recursos que ela oferecia, tais como as folhas, a água e o barro. Como sociedades indígenas percebem o corpo como parte da natureza, a saúde, continua ele, resulta da relação equilibrada entre corpo físico, emocional e natural. ‘‘A pessoa que vive num estado de espírito de sofrimento, de negatividade, de desesperança, tem a propensão de atrair mais doenças do que uma pessoa que pensa de maneira diferente’’, completa.
  Kaká Werá reforça que, segundo a tradição indígena, o estado mental ou emocional da pessoa funciona como uma chave que pode abrir determinadas portas energéticas para a entrada das doenças. Para combatê-las e reequilibrar as energias, então, é necessário recorrer às forças da natureza.
  Ele esclarece que a visão do índio sobre a doença e a cura é fruto de uma visão holística primal de origens ancestrais. ‘‘Em todas essas tradições, a cura também ocorria dessa maneira porque, no princípio dos tempos, o ser humano tinha uma visão muito mais abrangente, do todo. Hoje é que temos uma visão cada vez mais fragmentada, segmentada. Isso dificulta o entendimento sobre as leis da natureza e da vida’’, analisa o índio.
  E para que todo esse conhecimento milenar não se perca ante a aproximação predatória do homem branco (que é chamado de ‘‘kupém’’, em guarani) é que Kaká Werá criou uma ONG – o Instituto Arapoti, localizado numa reserva florestal em Itapecerica da Serra (SP) – que atua na valorização da cultura e da auto-estima das comunidades indígenas. ‘‘Infelizmente, a maior parte dos povos indígenas hoje acaba sendo mais conhecido pelos problemas graves que apresenta, como o alcoolismo, a desestrutura social, a falta de terras, a biopirataria, do que por seus valores mais sagrados e profundos’’, lamenta.
  A própria história pessoal desse índio que já escreveu quatro livros é um exemplo dessa luta. Seus pais, índios tapuias de uma aldeia do norte de Minas Gerais que foi dizimada na década de 1960, se mudaram para uma região próxima a São Paulo, vizinha à uma aldeia guarani, onde ele nasceu. Ainda criança, com a morte dos pais, foi viver com os guaranis e recebeu os ensinamentos sagrados da medicina dos pajés. Batizado de Kaká Werá Jecupé (raio dourado, na língua guarani), ele busca inspiração no próprio nome para fazer com que a cultura de seu povo nunca caia na escuridão do esquecimento.

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