A ex-operária Valdivia Ferreira da Silva Cruz, 47 anos, vem de General Carneiro (36 km a sudoeste de União da Vitória) a Curitiba todo mês para se consultar no Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), há três anos. São quatro horas de viagem. Ela tem um problema não diagnosticado no intestino. "Saio de casa ainda de madrugada para chegar aqui às sete da manhã", conta.
Joice Liane Heinzen, 33, acompanha o marido, Dário Cesar Neves, 47, desde 2005, quando ele foi diagnosticado com hepatite C e depois com câncer no fígado. Neves é paciente do HC e precisa vir a Curitiba duas vezes por semana. O casal é de Foz do Jordão (115 km ao sul de Guarapuava) e viaja seis horas para que Dário possa se tratar.
Já Maria Josita Martimcoski, 63, viaja de Telêmaco Borba (128 km ao norte de Ponta Grossa) com o marido para se tratar de hepatite C. "Na nossa regional de saúde não tinha o tratamento, então viemos para cá", diz. Há três anos, os dois viajam duas vezes por mês para Curitiba. São três horas e meia de viagem.
A rotina de Valdívia, Joice e Maria é a mesma de mais de 6 mil pessoas moradores de municípios do Interior que vêm para a Capital todos os meses procurar tratamento médico. "Como a medicina de ponta é muito cara, a tendência é que existam centros de excelência nas grandes cidades", explica Ana Luiza Gondim, diretora da Central de Assistência à Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba.
Como não há maneira de distribuir centros de alta tecnologia pelo interior do Estado, a vida de quem precisa de tratamento especializado começa a mudar no diagnóstico. "Uma vez estabelecido que não há recursos no município, a própria secretaria municipal de Saúde procura vagas nos centros para o paciente", conta Ana Luiza. O agendamento da primeira consulta em Curitiba é feito via internet. Assim que o paciente consegue a vaga na Capital, todo o tratamento dele é garantido.
"A porta de entrada do sistema é dividido em 70% -para pacientes de Curitiba- e 30% -para quem é de fora da cidade-, mas depois que o doente é aceito, essa divisão é desconsiderada", diz. A cidade, explica Ana Luiza, recebe recursos extras do Sistema Único de Saúde (SUS) para atender a essa demanda. Por outro lado, os municípios que enviam pacientes tem a obrigação de cobrir as despesas com transporte, alimentação e, eventualmente, de pernoite dos pacientes.
Tem direito a ter esses custos cobertos pelo SUS todo paciente que precisa se deslocar mais de 50 quilômetros para se tratar. O pagamento das despesas pelas prefeituras é sujeito à disponibilidade orçamentária do município, segundo o Ministério da Saúde. "As condições mudam de uma cidade para outra", avalia Carlos Ricardo Bolstelmae Neto, da coordenação da Comissão Estadual do Tratamento Fora de Domicílio (TFD).
"A maioria dos municípios acaba optando por ter um ônibus ou van para fazer o transporte", diz. Para Ana Luiza, o maior problema do sistema é a falta de critério para o envio de pacientes para Curitiba. "Quem decide é o médico e a disponibilidade de consultas. Como aqui temos um sistema online de divulgação das vagas, acabamos recebendo mais pacientes", aponta.
Para Bolstelmae, outro fator que influencia a preferência por uma ou outra cidade no tratamento é o médico e o próprio paciente. "Às vezes o profissional é formado em instituições daqui e acabam encaminhando seus pacientes para colegas e professores que conhecem aqui e nos quais confiam", explica. "Nem sempre vir para Curitiba é a melhor opção para o paciente. Há casos em que é possível que o doente seja atendido em centros mais próximos da cidade de origem", defende Ana Luiza.

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