James Alberti
Albari Rosa (fotos)
De Campo Caravela
Gingando o corpo de quase dois metros de altura após descer do helicóptero S.76.A, de 12 lugares, da Petrobras, o rapaz caminha pouco mais de 20 passos, bate o pé no chão duas vezes e diz: ‘‘Terra firme, meu Deus que bom, terra firme.’’ Termina a segunda quinzena de trabalho do auxiliar de plataforma Leonam Pereira, 20 anos, o caçula dos 71 trabalhadores da plataforma de petróleo P14, da Petrobras, que explora o Campo de Caravela, até hoje disputado pelos estados do Paraná e Santa Catarina. Com os olhos crispados e um sorriso na boca, o auxiliar dá graças a Deus. Há apenas dois meses embarcado, Leonam só não desistiu para não envergonhar o pai, Manoel, de quem herdou o nome, só que escrito ao contrário.
Terminava também a viagem de um dia da reportagem da Folha pela P14, uma ilha de ferro de 22 mil 462 toneladas que crava suas garras no solo do Oceano Atlântico para extrair dele o ouro negro: o petróleo de melhor qualidade do País. Sobre os dois submarinos que mantêm a plataforma flutuando, trabalhadores vivem uma vida incomum, entrelaçada de riscos, ‘solidão’, companheirismo, sonhos, angústias e de saudades às vezes incontroláveis. E de comida – comem em intervalos de três horas –, de diversões diversas e trabalho, de 12 horas seguidas de muito trabalho.
Antes de cada embarque, antes de se despedir da ‘vida lá fora’, como eles dizem, os trabalhadores passam por um ritual sagrado e indispensável. Sentados numa sala da sede da Petrobras no Aeroporto de Navegantes (Santa Catarina), eles assistem uma fita de vídeo que lhes ensina as normas de segurança, como proceder se o ‘super’ helicóptero tiver um problema e etc.
Antes disso ainda, os trabalhadores, e os visitantes também, passam por uma pesagem, que serve para informar aos comandantes da aeronave o peso dos ‘passageiros’. ‘‘É como se fosse um embarque comum, só que aqui a bagagem maior são as pessoas’’, explica o assessor de comunicação social da Petrobras, Eduardo Teixeira Leite.
Foi por conta dessa pesagem, e da comida servida a cada três horas, que se pode saber que um dos ‘embarcados’ engordou 15 quilos em dois embarques. O trabalhador ficou 14 dias na plataforma e 14 dias em casa, outros 14 dias na plataforma e, na volta, tinha 15 quilos a mais. ‘‘Se não se cuidar, aqui engorda mesmo’’, avisa o cozinheiro Roberto Carlos Felisbino, 20 anos. O comissário de bordo Ilton José Faustino, 29 anos, responsável pela hotelaria na P14, explica que o pequeno intervalo entre cada refeição e lanche é para não privar nenhum dos trabalhadores do ‘único’ prazer que possuem em alto mar. ‘‘Eles já se abstêm de sexo, cervejinha... tudo se resume ao prazer de comer bem’’, afirma. E a 12 horas de trabalho.
A chave e o sabonete
A abstenção dos ‘prazeres’ da vida, como diz Faustino, é precedida por uma viagem de quase 50 minutos de helicóptero sobre a água às vezes azul, às vezes verde do Atlântico. Lá de cima, coçando os blocos de nuvens brancas, os trabalhadores vêem apenas água e alguns barquinhos de pesca, que mais parecem caixas de fósfaro. Alguns não vêem absolutamente nada e dormem para esquecer o medo, o suor da testa, a namorada que ficou para trás, a mulher, os filhos...
Depois de quase 50 minutos, pode-se avistar a P14 e um navio que serve para armazenar o petróleo. Do alto, eles parecem estar quase encostados. Na verdade, estão 1,8 mil metros distantes. Do alto, a plataforma parece pequena. Na verdade, tem 96 metros de comprimento, da proa à poupa; 69 metros de largura e 96 metros de altura. São três andares. No primeiro estão o restaurante, as salas de jogos, de cinema e TV, de musculação, a quadra de futebol, sauna, lavanderia. No segundo, os alojamentos. No terceiro, o externo, estão o heliporto e as máquinas que enfiam os canos a uma profundidade de 150 metros e perfuram a terra outros tantos metros mais.
Ao chegar na plataforma, os trabalhadores descem do S.76.A e são balançados pelo jatos de vento que partem das hélices da máquina. Depois que a aeronave parte, percebe-se que parte do balanço é da própria plataforma, é do mar. Na P14, depois de rápidas saudações, um a um, os trabalhadores vão se dirigindo para uma nova sala. Nesta, encontram o responsável pela segurança e o enfermeiro. Ali recebem novas orientações, sagradas e indispensáveis, sobre as normas de segurança e os procedimentos em caso de emergência. Ali recebem também o sabonete e a chave do alojamento.
A opção e o salário
Com passos rápidos pelos corredores, os trabalhadores se despedem de vez da folga. Já não têm tempo de pensar na saudade, o calcanhar-de-aquiles de todos. Muitos nem queriam ter voltado. ‘‘O que mais pega é a distância da família. Depois dos 21 dias de folga, começa a bater a saudade e você já nem quer muito vir para a plataforma’’, diz o mecânico Gilnei Guedes Ribeiro, 38 anos, funcionário efetivo da Petrobras há 17 anos. É a condição de funcionário da estatal que permite a ele folgar 21 dias ao invés de 14, como outros trabalhadores. De alguns anos para cá, a Petrobras tem terceirizado determinadas funções, para melhorar a competividade, com isso o salário dos embarcados ficou menor, os benefícios também. Há sempre quem reclame, às escondidas. Há sempre quem diga que ‘la fora’ está pior.
A tristeza com a diferença de salário entre os funcionários das ‘terceirizadas’ e os da Petrobrás jorra dos nervos dos operários com a mesma intensidade com que as bombas sugam o petróleo. Sai como lágrima dos olhos do plataformista Brás José da Silva Santana, 36 anos, que trabalha numa das cinco funções mais perigosas do mundo e vê no final do mês o número 480 marcado no seu olerite, com um R$ na frente. Para a mesma função, segundo ele, os colegas da empresa pública recebem entre R$ 950,00 e R$ 1,1 mil.
Simpático, o homenzarrão, que parou o trabalho para dar entrevista, não se envergonha em revelar o medo e, ao contrário, faz disso uma lição. ‘‘Medo todos nós temos. Faz a gente evitar acidente’’, revela. ‘‘A todo momento a gente está correndo perigo. Um descuido pode ser fatal.’’ Mas não seria uma fatalidade o que teria feito esse baiano optar por uma profissão assim? Não foi fatalidade, mas o salário. ‘‘A gente se acostuma ao serviço ruim’’, afirma. ‘‘Nós não temos opção. Nesse País que nós vivemos, nós não temos opção.’’
Selma, a única
Ela diz que não imaginava o que encontraria pela frente; mas gostou. Selma Gomes de Melo, 26 anos, é a única mulher entre 70 homens. ‘‘Tem muito respeito. Em tudo sou a primeira. Sempre tem alguém que abre a porta, que puxa a cadeira’’, conta. Indicada por um amigo, ela conseguiu a vaga de recepcionista há três anos e não pensa em desistir. A maior dificuldade fica por conta do ciúme do namorado. ‘‘Quem não sentiria ciúmes?’’, pergunta. Depois, ela recua. ‘‘Acho que ciúme é muito forte, não é a palavra ideal’’, pondera.
Com banheiro e camarote separados, vestida com macacão como os outros, Selma quase passa desapercebida pela plataforma. Mas quando passa batom e se arruma para voltar para Duartina, interior de São Paulo, provoca ‘susto’ entre os colegas. ‘‘Só aí que a gente percebe que ela é uma mulher’’, afirmam os trabalhadores. Mas aí ela sobe no helicóptero e vai-se embora. Volta 14 dias depois, para vestir novamente o macacão.Para extrair o ouro negro brasileiro, dezenas de homens trabalham isolados numa ilha de ferro suspensa em águas do Sul do País
EsforçoO trabalho diário é duro para os petroleiros da plataforma P14, da Petrobras, que ficam duas ou até três semanas sem pisar em terra firma e sem ver as famíliasVida difícilHá dois meses ‘embarcado’, o caçula dos 71 trabalhadores, Leonam Pereira, diz que só não desistiu da busca pelo petróleo para não envergonhar o pai ManoelGarras no OceanoA plataforma flutuante de Campo Caravela, no litoral sul, entre Paraná e Santa Catarina, foi construída em 1992‘Ser estranho’Selma Melo é a única mulher da plataforma. Há três anos, quando assumiu o cargo de recepcionista, não sabia o que ia encontrar. Hoje nem pensa em desistirBola no marPara espantar a tristeza, a solidão e a saudade da família os trabalhadores têm até quadra para jogar futebol. Partidas acontecem no primeiro dos três andares da plataforma

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