''Fumei maconha pela primeira vez quando tinha 17 anos, com um amigo descolado, que era sempre o centro das atenções. Achei que podia ser como ele e, iludido, também comecei a fumar. Mais tarde me apaixonei por uma garota que fumava crack, que me convenceu a experimentar. Não parei mais. Hoje tenho 29 anos e vivo em constante luta para me livrar da droga. Quando tenho recaídas, fico dois, três meses entregue ao vício, e não consigo conciliar com família, trabalho, vida em sociedade. Sou do tipo que todo traficante gosta: quando estou trabalhando conquisto vários bens materiais, depois me desfaço de tudo para comprar crack.''
O depoimento acima é de Douglas, um mecânico que, mais uma vez, está tentando se reerguer. Na última terça-feira ele concluiu, com outros 27 jovens, curso oferecido pelo Programa Saiba, no Patronato Penitenciário de Londrina. O curso foi criado por promotores do Juizado Especial Criminal como forma de cumprir uma das penas previstas no artigo 28 da lei 11.343/06, que instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad).
De acordo com a lei, ''quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo para consumo pessoal drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, será submetido a três tipos de penas: advertência sobre os efeitos das drogas; prestação de serviços à comunidade; medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo''. No Programa, os participantes frequentam seis encontros semanais, com duração de quatro horas cada.
Para Douglas, ser condenado a participar do Saiba foi uma bênção. Ele já ficou preso por dois anos, uma experiência que não quer repetir. ''Lá só conheci gente que hoje me facilitaria comprar armas e drogas. Fiquei em uma cadeia que o PCC dominava, e se quisesse tinha me batizado.'' Ele acha que as discussões em grupo lhe deram mais lucidez: ''Hoje eu me entendo melhor, sei das consequências terríveis do uso do crack.'' Douglas já enfrentou 14 internações e garante que, com ele, esse método não funciona. ''O mais difícil não é falar para a sociedade, mas para a gente mesmo.''
Anderson, 23 anos, é outro jovem que perdeu muito da vida para as drogas. ''Comecei com maconha e bebida alcoólica aos 12 anos. Conheci o crack aos 17. Não fiz nada na minha juventude, perdi muito nesse tempo todo e agora estou tentando fazer alguma coisa de bom para mim e para minha família. ''Anderson gostou da abordagem do curso que fez no Patronato, ''porque mostrou que são as nossas próprias escolhas que definem nossa vida''.
Grávida de oito meses, Cintia (nome fictício), 29 anos, não vê a hora de o bebê nascer porque acredita que só assim conseguirá ficar mais tempo longe do vício. Ela conheceu a cocaína aos 15 anos. Já morou na rua, se prostituiu, foi presa. Desta vez, foi detida em casa, fumando crack. ''Parar não consigo, só diminuir. Melhorei depois que meu outro filho, de dois anos, nasceu. Já fui internada 11 vezes, mas minha mãe nunca desistiu de mim'', conta a gestante que já ficou um ano longe do efeito devastador da droga, mas não resistiu à rápida sensação que ela provoca.
Segundo o diretor do Patronato Penitenciário de Londrina, Tadeu José Migoto, o programa desenvolvido no município visa inserir os usuários na comunidade, e não afastá-los. ''O curso os ajuda a fortalecer vínculos familiares, resgatar valores, aprender a fazer escolhas, a sentir-se dono do seu destino.''
Até o início do programa, em junho, só 15% dos usuários enquadrados no artigo 28 da lei 11.343 cumpriam toda a pena de tratamento ou prestação de serviço. Dos 75 participantes do Saiba até agora, apenas quatro não concluíram o curso. (S.L)

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