A difícil adaptação dos brasileiros no Japão
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terça-feira, 20 de março de 2007
Silvana Leão<br> Silvana Leão 
A maioria dos brasileiros que vivem no Japão é discriminada pelas rígidas regras culturais do país e enfrentam problemas para aprender a complexa língua local. Como resultado, dificilmente os jovens conseguem chegar ao ensino médio e superior. O governo japonês, por sua vez, não tem uma política de imigração, fechando os olhos para os problemas vividos pelos cerca de 300 mil brasileiros que lá vivem. Esta é a delicada situação que será relatada durante palestra que será proferida hoje à noite na Universidade Estadual de Londrina (UEL) pela professora Eunice Ishikawa, da Universidade Shizuoka de Arte e Cultura, da cidade de Hamamatsu.
Eunice é uma londrinense que foi para o Japão há 20 anos, pensando - como a maioria - em voltar logo. Mas o tempo foi passando, ela se formou em sociologia, fez pós-graduação e agora está concluindo sua tese de doutorado sobre a identidade étnica e a adaptação social dos brasileiros naquele país, tema que estuda desde o início dos anos 90. A palestra na UEL é promovida pelo Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa (NECJ).
''Em 87 eram 2.250 brasileiros no Japão. Em 92 já eram cerca de 150 mil, resultado da política adotada pelo governo japonês para conseguir mão-de-obra. Ao mesmo tempo, porém, as leis japonesas não admitem imigrantes, e os estrangeiros continuam a ser muito discriminados'', relata a pesquisadora.
Como o governo central não reconhece legalmente os imigrantes, não disponibiliza no sistema educacional projetos de ensino para os filhos dos brasileiros. ''Estudar é permitido aos estrangeiros, mas não é obrigatório, como acontece com os japoneses nos nove primeiros anos de estudo'', explica. Eunice acredita que este sistema acomoda as famílias brasileiras que lá estão. ''Em vez de professores de japonês, eles disponibilizam intérpretes em vários lugares. Ou seja, eles não querem resolver o problema da língua. Ainda acreditam que os estrangeiros estão lá temporariamente, quando na verdade eles se estabilizaram no país e são necessários para a economia japonesa.''
Os filhos de brasileiros que já estão nascendo do outro lado do mundo vivem uma situação dúbia e preocupante, de acordo com a pesquisadora. Dentro de casa, muitas vezes, aprendem costumes brasileiros e se comunicam com a família em português, mas frequentam escolas onde falam em japonês. Com isso, aprendem o básico para ler e escrever pequenos textos, mas conforme o ensino avança, a língua se torna cada vez mais complexa. ''Para se ter condições de ler um jornal, por exemplo, é preciso saber pelo menos dois mil caracteres. A língua, portanto, é um sinal de status para os japoneses e uma grande barreira para os estrangeiros'', completa a professora.
Para Eunice, embora a maioria dos dekasseguis mantenha consigo o mito de que um dia voltarão ao Brasil, nem metade deve chegar a fazer isso. ''Todos querem voltar, mas a readaptação aqui também é muito difícil, até porque não se qualificaram enquanto estavam fora.''


