Cansado daquela vida, seo Jorge decidiu viver em um asilo, apesar de sempre temer que isso acontecesse um dia
Cascavel - O maior medo na vida de seu Jorge, 77 anos, era um dia acabar em um asilo. Ele, que sempre trabalhou para dar comida e estudo para os oito filhos, temia que quando chegasse a velhice, nenhum deles tivesse paciência para abrigá-lo em sua casa. E, para sua infelicidade, foi exatamente isso que aconteceu quando sua esposa morreu.
Depois de perder a mulher que lhe acompanhou por mais de 50 anos, seo Jorge ainda perambulou pelas casas dos filhos. Mas a cada mês tinha que mudar, pois sempre surgia uma desculpa que impedia sua permanência. Uns diziam que o trabalho impedia dar atenção ao pai, outros não aguentavam mais a esposa reclamar das manias do sogro, mas a verdade é que nenhum deles tinha coragem de assumir que o pai ‘‘incomodava’’.
A forma como era tratado na casa dos filhos não agradava em nada seo Jorge. Ele não entendia o motivo de tanta ingratidão daqueles por quem sempre deu o sangue para que tivessem, ao menos, uma vida digna. Cansado daquela vida, ele decidiu convocar uma reunião em família e comunicar que o melhor seria viver em um asilo, apesar de sempre temer que isso acontecesse um dia.
A princípio, os filhos ficaram assustados com a decisão, mas acabaram concordando, já que nenhum queria mesmo o pai em casa. E lá foi seo Jorge com todos seus temores viver em um asilo. Os primeiros dias foram muito difíceis. Todas aquelas pessoas lhe eram estranhas. Para as enfermeiras sempre olhava desconfiado, com medo de que fossem lhe aplicar alguma injeção ou medicamento que piorasse ainda mais sua saúde já debilitada.
No começo os filhos ainda lhe faziam algumas visitas, dando a entender que o pai era importante para eles. Mas seo Jorge sabia que se eles tiveram coragem de deixá-lo ir para aquele lugar, ele não significava muito para seus familiares. Aos poucos, Jorge foi se acostumando com o lugar, com as pessoas, e começou a perceber que o asilo não era tudo aquilo que ele tanto temia.
Os finais de semana chegavam e seo Jorge já nem se preocupava se os filhos vinham lhe visitar. Ele queria mesmo era conversar e passar o tempo junto aos novos amigos com quem jogava baralho e contava histórias da vida. Os médicos e enfermeiras já eram tratados como pessoas amigas, que realmente se preocupavam com ele.
Na última semana, dois filhos de seo Jorge estiveram no asilo para fazer uma visita e disseram para o pai que queriam que ele voltasse a morar com eles. Mas, para surpresa, aquele homem, que tanto temia o asilo, disse aos filhos que naquele lugar tinha encontrado a felicidade, a mesma que sentiu nas oito vezes em que se tornou pai.

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