‘‘A funcionalidade sexual é muito importante para a vida dos seres humanos. A sexualidade é um dos sentimentos que mais nos propiciam prazer e felicidade. É nela, além da inteligência, que temos o grande diferencial dos homens para com os outros animais mamíferos. Eles sempre procuram o sexo como forma de reproduzir a família, a espécie. Os homens e mulheres, de forma ativa ou passiva, fazem do ato sexual, da conjunção carnal, o momento máximo de afeto entre eles. E isto é prazeroso, dá felicidade. É dentro deste contexto, que precisamos analisar a questão do transexualismo. Porque os transexuais são pessoas que nasceram fisicamente com um sexo - masculino, normalmente -, mas têm a cabeça, a personalidade, e a vida centrada no outro sexo, o feminino.
Está explicação foi dada pelo cirurgião e professor da Faculdade Municipal de Medicina de Jundiaí (interior de São Paulo), Jalma Jurado, no último final da semana em Londrina, durante o 1º Simpósio Brasileiro sobre Transexualismo. Formado médico em 1961 e doutor em cirurgias plásticas pela Universidade de São Paulo (USP) desde 82, há 25 anos ele trabalha com transexualidade, já tendo realizado cerca de 60 operações para a mudança de genitais em pacientes de sua clínica particular.
Marcelo AlmeidaPrisãoJ. L., de Curitiba: ‘‘Ser transexual é como ter uma alma feminina presa num corpo masculino’’Segundo Jurado, o transexualismo está presente em todas as culturas e civilizações humanas, além de ser encontrado em várias espécies animais. ‘‘É uma desarmonia entre o cérebro e a parte genital do corpo, que necessita de correção. Ela esteve presente entre os índios, esquimós, brancos, negros e amarelos de todas as épocas, independentemente da raça, religião, cor ou classe social. A sexualidade não tem limites, e a medicina tem a obrigação de entender e se desenvolver para dar resposta e apoio a estas pessoas’’, afirma o médico.
Ele conta que estudos europeus e norte-americanos indicam que o transexualismo tem origem físico-biológica localizada no cérebro. ‘‘Estudos em cérebros de transexuais masculinos mortos comprovam que há alterações neles, com a preponderância de características femininas. Isto apóia a teoria de que o transexualismo não tem origem psicológica, mas sim física. Aliás, no mundo inteiro não há um único registro de transexual que tenha conseguido reverter seu problema somente com tratamento psicológico’’, diz Jalma Jurado.
De acordo com o cirurgião plástico, as mudanças comportamentais que indicam a existência do transexualismo aparecem entre os 3 e 5 anos de idade. ‘‘É quando os meninos - apesar de possuírem pênis - começam a ter comportamentos que são típicos de meninas, e vice-versa. O transexual não se conforma de ter um genital do sexo trocado; e, independentemente da vontade dos pais e outras pessoas, ele vai se comportando e tentando mudar de sexo. E a ação dos hormônios sobre as células vai mudando o visual do físico dele, acompanhando o seu comportamento psicológico.
Jurado explica que dificilmente ocorre o transexualismo secundário, descoberto já na fase adulta. É mais comum o transexualismo masculino, na proporção de seis homens para uma mulher. Não há estatísticas precisas sobre o número de transexuais no Brasil, mas cerca de oito mil já aguardam na fila por uma operação que possibilite a mudança genital. Na Europa, avalia-se que exista um transexual a cada 100 mil habitantes.
‘‘Eles são obstinados pela mudança de sexo. Passam a vida inteira em busca de apoio da medicina e da Justiça para esta alteração, que para a vida e felicidade deles é fundamental. É uma minoria que merece o respeito social e a dedicação da ciência’’, ressalta Jalma Jurado, garantindo que a cirurgia é complexa, mas muito segura. ‘‘Ela não é um implante, o que evita as cicatrizes em outras partes do corpo. É uma adaptação feita a partir dos próprios tecidos do órgão genital do paciente. Quase tudo é aproveitado, e um sexo se transforma no outro com um nível de sucesso entre 80 e 90%.
Desde 97, o Conselho Federal de Medicina normatizou, de acordo com padrões internacionais, a possibilidade destas cirurgias serem realizadas em hospitais-escolas ou em hospitais particulares para fins de ensino. O professor da Faculdade de Jundiaí diz que há, em todo o mundo, cerca de 40 centros médicos especializadas neste tipo de operação cirúrgica. Os preços cobrados pela mundança variam entre R$ 10 mil e R$ 20 mil - de homem para mulher -, e entre R$ 80 mil e R$ 100 mil, de mulher para homem, que é mais rara e complicada.
Quem tem dinheiro, vai se submeter à cirurgia no exterior. No Brasil, é voz corrente entre os médicos, as operações acontecem clandestinamente em clínicas particulares desde a década de 70. ‘‘Não há no Brasil uma proibição legal explícita. E as autoridades médicas autorizam a realização da cirurgia. Restam as questões civis, com a da mudança do nome e a possibilidade de casamento, por exemplos’’, comenta o médico paulista, lembrando o caso da modelo Roberta Close, que passou pela operação na Europa, mudou de sexo, mas ainda não conseguiu a legalização dos documentos no Brasil.
Em 1979, uma lei aprovada pelo Congresso Nacional - possibilitando as cirurgias e posterior expedição de novos documentos aos transexuais - foi vetada pelo então presidente da República, general João Baptista de Oliveira Figueiredo. Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados um novo projeto de lei que tenta resolver a questão. ‘‘Está comprovado que o transexualismo é uma doença, e não um desvio de comportamento. E, como tal, ela pode e deve ser curada com uma cirurgia que pode ser feita entre os 21 e 58 anos de idade’’, diz Jalma Jurado.
Para fazer a operação nos hospitais-escolas públicos, que vão disponibilizá-la no início no ano que vem, o paciente terá que passar por uma triagem de no mínimo dois anos. Além de não usar drogas, não ter resquícios de doenças sexualmente transmissíveis e não atuar em profissão anti-social - como a prostituição -, o candidato à cirurgia em caráter experimental será avaliado por uma equipe médica multidisciplinar. ‘‘Hospitais para receber os pacientes, nós temos. O que faltam são equipes de médicos especializados no número da demanda existente. Tudo leva a crer que este tipo de operação só se tornará rotineira a partir de 2001’’, explica o cirurgião paulista, lembrando que países sul-americanos como o Peru, Chile e Colômbia já fazem este tipo de operação com excelentes resultados.
‘‘No Brasil, os resultados também são bons. Os que passam pela operação começam uma nova vida social, familiar, sexual e econômica muito mais produtiva e feliz. A sua reintegração à sociedade é bastante rápida e boa. Eles trabalham mais e melhor; se casam, têm prazer sexual, às vezes adotam filhos e constituem famílias’’, afirma Jurado, lembrando que, por motivos óbvios, eles não podem apenas se reproduzir com os novos genitais. ‘‘É lógico que esta cirurgia, como todas as outras, traz em si alguns riscos. Mas apesar de complexa, em geral ela é bastante segura. Não houve no País, até hoje, nenhuma morte como consequência dela.

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