A dança que transforma
Ainda adolescente, o sócio-educador Édio Elias Gonçalves lembra como foi o início dos problemas. ''Comecei a usar drogas aos 13 anos. Na época eu trabalhava e tinha dinheiro para sustentar o vício. Mas tudo não passava de uma ilusão que a droga cria'', comenta. Com o passar dos anos, a situação piorou. ''Ingressei em outras drogas mais pesadas e até mesmo a vender.''
O trabalho que sustentava o vício, entretanto, foi perdido. ''Estava com três filhos pequenos para criar e tinha que dar um jeito. Foi quando vi uma oportunidade de emprego em Jaguapitã.'' Mesmo com o objetivo de mudar de vida, a mulher não o acompanhou. ''Estava sozinho e minha condição só piorou. Comecei a beber, a fumar crack e fui parar no fundo do poço. Cheguei a pesar 57 quilos; era só pele e osso. Dormia na rua como mendigo, perdi qualquer vaidade'', recorda.
O início da mudança estava por vir. ''Fui internado numa clínica de recuperação no Mato Grosso e lá fiquei por seis meses'', conta ele, que estava com 30 anos. O desafio maior, contudo, ainda estava por vir. ''Pensava que quando saísse para o convívio social, precisava conscientizar os jovens sobre o perigo das drogas.''
Para a jornada, escolheu a dança, que havia abandonado pelo vício. ''Ainda jovem, participava de um grupo de dança de rua. Muitos adolescentes se espelhavam em nós e faziam o que fazíamos, que era usar drogas. Pensei: se tínhamos essa influência para as coisas ruins, por que não fazer o contrário?''
E foi exatamente o que aconteceu; reuniu pessoas que tinham passado por uma situação difícil como ex-prostitutas e ex-usuários. ''Fazíamos intervenções de dança na rua e depois abordávamos as pessoas dando nosso depoimento de vida e distribuindo panfletos.'' Ainda que a vontade de ajudar fosse grande, o trabalho era realizado nas horas vagas. ''Tinha meu emprego fixo e a dança funcionava como um projeto voluntário'', observa.
Persistente na ideia de que poderia usar seu sofrimento para ajudar outros a não seguirem pelo mesmo caminho, conheceu a lei de incentivo à cultura. ''Com o projeto aceito, 'embarquei' de cabeça.'' Deixou o trabalho formal e começou a dar aulas de dança de rua para jovens e adolescentes.
Hoje, já são cerca de 300 jovens que atende nos projetos em diferentes instituições da cidade, até mesmo com menores infratores. ''Uso a dança como ferramenta para ensinar esses jovens a terem valores de amor ao próximo, cidadania e prevenção ao uso de drogas e criminalidade. Utilizo da minha história para alertar sobre as armadilhas que criamos'', conta.
Feliz com a nova vida que ganhou, afinal, já são 12 anos longe do vício, Gonçalves também comemora o trabalho que realiza. ''É muito gratificante saber que com minha palavra, ajudei outros a mudarem de vida. Porque para criticar, já existem muitos.'' (M.T.)





