A cura por meio da expressão
Além da medicação que recebem no Caps, os pacientes têm atendimento psicológico e encontram apoio nos trabalhos que desenvolvem nas oficinas terapêuticas. Dedicam-se à reciclagem, pintura, artesanato, dança, educação física, aos princípios de higiene e até de beleza, num processo de cura ou minimização do sofrimento por meio da expressão artística e do reforço da autoestima. Há também uma oficina dedicada à terceira idade e a terapias comunitárias. A psicóloga Thelma Martins explica que as oficinas ''ajudam a melhorar a atenção, a comunicação, a reorganizar o pensamento e estimulam a convivência.''
Entre outras atividades, ela se encarrega de levar grupos de 15 pacientes em passeios pela cidade, duas vezes por mês, promovendo a reinserção de indivíduos discriminados, às vezes, até mesmo na própria família. Ela fala da alegria que representa para essas pessoas tomarem o ônibus para ir ao Centro ou a outros bairros, onde entram em contato com o cotidiano dos chamados ''normais''. ''Outro dia um deles aproveitou o passeio para deixar o currículo numa lanchonete'', ela conta, reforçando a necessidade dos pacientes encontrarem trabalho que lhes garanta a sobrevivência, após crises e tratamentos.
Thelma também produz com os pacientes um jornal bimestral que tem um nome significativo: ''Zureta'', com notícias sobre saúde, histórias de vida e outras seções.
O trabalho é para que os pacientes reaprendam a interpretar a realidade. Mas as psicólogas enfatizam que a ideia corriqueira entre os ''normais'' de ver o louco como um ser sempre agressivo, não corresponde à realidade, fazendo parte do imaginário carregado de preconceitos que estigmatiza o doente mental.
''O que vemos por aqui muitas vezes são pessoas que se comportam de maneira desconfiada, medrosa, alienada. Elas podem apresentar agitação ou comportamento persecutório (mania de perseguição), mas em cinco anos de trabalho me deparei uma única vez com um paciente que manifestava uma agressividade fora de controle'', diz Thelma, corroborando com a afirmação da coordenadora Isabela Cesar de que a contenção de pacientes só deve acontecer em casos extremos.
Em outras palavras, os tratamentos traumáticos de outrora foram substituídos por tratamentos mais humanos que têm como base a confiança mútua entre os pacientes e os profissionais da saúde. É comum, nos corredores do Caps, as pessoas puxarem conversa ou solicitarem a atenção das psicólogas, mostrando que a troca de afeto e a construção de vínculos são peças-chave para vencer transtornos que o preconceito e a discriminação só agravam. (C.M.)





