A crise da saúde vista por dentro
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de fevereiro de 1999
Lúcio Horta 
Uma viagem pelo caos. Assim pode ser definida qualquer visita ao pronto-socorro do Hospital Universitário (HU) de Londrina. O cenário é de guerra: doentes espalhados em macas, deixando corredores mais apertados, dividem espaço com médicos apressados, acompanhantes, enfermeiros e funcionários da limpeza. O movimento de gente é constante e só quem trabalha no local entende como a engrenagem complexa pode funcionar.
Também é no pronto-socorro que se descobre que cada número de atendimento, apresentado formalmente pela direção do HU, tem nome. São Márcias, Paulos, Marias, Franciscos e outras pessoas que diariamente procuram o hospital em busca de auxílio médico. Alguns olham assustados o movimento constante. Outros nem isso podem: por falta de leitos na internação ou mesmo na UTI, permanecem entubados na enfermaria do pronto-socorro, respirando com ajuda de aparelho.
Quando cheguei aqui, na segunda-feira, estava muito mal. Precisei ir para a UTI. Mas acabei ficando mais de quatro horas no pronto-socorro porque não tinha leito para me acomodar. Depois vim para essa maca improvisada, onde estou até hoje (quinta-feira). Não é uma situação ideal, lamenta Maria Rosa Gara Gomes, 49 anos, e que estava internada no HU com complicações de diabetes.
Foi a segunda vez que Maria Gomes precisou do hospital e a segunda vez que fica no pronto-socorro, sempre acompanhada do marido Deocésio de Freitas Gomes. Ela comenta que vê com tristeza as condições físicas do hospital. A falta de leitos é calamitosa. Na maca do lado, por exemplo, tinha um paciente que devia ter uns 100 quilos e dava medo que ele caísse de lado. E tem muita gente para usar o banheiro: vem gente até do corredor, diz. Se tivesse instalações adequadas, não precisaria tirar meu marido do trabalho para ficar aqui comigo.
Sobre a qualidade de atendimento dos médicos ou enfermeiros, a paciente não tem do que reclamar. São anjos de Deus. Já fiquei em hospital pago e não tive o atendimento que tive aqui. Mas falta atenção do governo com as instalações físicas, para que eles possam desenvolver o trabalho. Eles se desdobram para atender com o pouco que tem.
Também na quinta-feira, Maria de Louder Demarchi, 46 anos, estava acompanhando a mãe Onofra da Silva Reis, 67 anos, internada com problemas de osteoporose, diabetes e pressão alta. Ela sempre fica no pronto-socorro, às vezes dois, às vezes três dias. Acho que deveria ficar em outro lugar, numa enfermaria. E o ruim é que no pronto-socorro a família tem que ficar junto, não pode descansar. Mas parece que falta espaço, diz Demarchi.
A mesma opinião tem Sidnei Caetano, 30 anos, que acompanhava a avó Isaura de Jesus Camargo Pereira, 86 anos, também com problemas de diabetes. Na quinta-feira ela completava um dia inteiro acomodada numa maca no corredor do HU. É sempre assim, cheio. O povo deve achar que atende bem, porque vem todo mundo para cá. Mas tinha que ter mais estrutura, diz Caetano.
Menos preocupado estava Manoel Pereira dos Santos, 86 anos, que chegou ao hospital com problemas de febre e tremedeira, como ele definiu. Também foi parar no corredor do pronto-socorro, onde ficou acompanhado de uma neta. Está muito bom ficar aqui, não tem problema, não! Estou fazendo exames, de pulmão e de sangue, e o atendimento é bom. Não tem problema, não!, repetia, com simplicidade.


