PERFIL -

A cientista da Kombi vermelha de Cianorte

Linnyer Beatrys R. Aylon, docente na UEM e pesquisadora na área de internet das coisas, é a primeira mulher a assumir a Sociedade Brasileira de Microeletrônica

Micaela Orikasa - Grupo Folha
Micaela Orikasa - Grupo Folha

O nome Linnyer, de origem francesa, foi uma homenagem do pai caminhoneiro que, aos 40 anos, decidiu deixar as estradas para se tornar um dos primeiros advogados em Cianorte (Noroeste). A identidade era de uma advogada cuja história ele conheceu no início da faculdade de Direito e tal apreço ficou registrado para a segunda de suas quatro filhas.  


Linnyer Beatrys R. Aylon realizou os três sonhos da infância: ser cientista, ter um filho e uma Kombi vermelha
Linnyer Beatrys R. Aylon realizou os três sonhos da infância: ser cientista, ter um filho e uma Kombi vermelha | Acervo pessoal
 



Sidney Ruiz faleceu em 2009, mas sua lembrança tem um lugar especial na narrativa da cientista Linnyer Beatrys Ruiz Aylon, primeira mulher a ocupar a presidência da SBMicro (Sociedade Brasileira de Microeletrônica), fundada há 35 anos. A posse aconteceu no dia 24 de agosto.  




Com 50 anos, Aylon brinca ao dizer que "nasceu" com a microeletrônica, pois esse ramo da eletrônica está no Brasil há cerca de 55 anos. “É uma área que a gente diz que é invisível, pois ela habilita todas as coisas como carros, máquina de lavar, interfone, lâmpadas de LED, equipamentos de saúde e celulares, mas as pessoas não percebem”, explica.  


Aylon é também docente do Departamento de Informática da UEM (Universidade Estadual de Maringá) e membro do Comitê de Assessoramento da área de Microeletrônica do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).  


No ano passado, foi indicada ao prêmio nacional “Carolina Bori Ciência & Mulher” na categoria “Mulheres Cientistas”, o que para ela representa um reconhecimento de histórias de vida e da contribuição de mulheres para a Ciência, com o objetivo maior de inspirar outras mulheres, crianças e jovens. 


“É um reconhecimento no sentido de mostrar como a ciência é válida. Como ela muda. E que,   mesmo diante de condições que eram improváveis, muitas mulheres construíram grandes carreiras. Em nossa sociedade existem mulheres brilhantes, mas que estão escondidas. Portanto, ter modelos é muito importante”, diz. 


PASSADO PRESENTE

É falando sobre modelos que Aylon volta no tempo. Ao reviver o passado, marcado por violência doméstica e extrema pobreza, a cientista destaca o quanto foi importante ter visto o pai fazer uma faculdade, enquanto a tia se dedicava ao doutorado. Ela também cita o trabalho em uma cooperativa agrícola, onde teve o exemplo da simplicidade e determinação.  


"A diferença na minha vida foi ver meu pai caminhoneiro indo para a faculdade porque ele me mostrou o que é a universidade e a minha tia, com o doutorado, me mostrou que é possível se especializar e contribuir para o bem da sociedade. Além disso, teve a história da Laika, que me mostrou para onde eu deveria ir”, lembra. 


A cachorrinha Laika foi lançada no espaço dentro de uma cápsula no satélite russo Sputnik 2, em novembro de 1957 e morreu poucas horas depois do lançamento. O primeiro contato com essa história foi quando Aylon tinha apenas 4 anos. Uma kombi vermelha que passava pelas ruas do bairro vendendo verduras e chocolate, tinha um doce em especial que trazia cartelas com histórias de animais.  


“E a da Laika lançada no espaço me deixou aturdida. Todo mundo me dizia que para eu buscar a Laika teria que ser cientista, engenheira e ser homem. Foi aí que nasceram três grandes sonhos: ser cientista, ter um filho e uma Kombi vermelha", conta. E o primeiro passo de Aylon rumo à jornada da vida foi gostar de matemática.  



A cientista da Kombi vermelha de Cianorte
Acervo pessoal
 





JORNADA 

A jovem de Cianorte, estudante de escola pública, sabia que a porta para o futuro era ler bastante e aprender matemática. Anos depois, o atestado de pobreza da mãe, já separada do pai, garantiu uma bolsa de estudos na PUC (Pontifícia Universidade Católica) em Curitiba. Era o ano de 1987 e ela entrava para o primeiro curso de engenharia de computação no País.  


“Eu não tinha nem mala para sair de casa. Minha mãe customizou um saco grande de açúcar e com o tempo fui recebendo ajuda com os materiais por parte de professores e colegas de curso, que tinham um padrão de vida muito diferente do meu. Mas eu tinha uma alegria verdadeira de estar ali. Eu queria buscar a Laika”, contextualiza.  


Durante a faculdade, Aylon fez estágio e começou a ganhar dinheiro, além de autoestima. Desde então, segue enriquecendo o currículo com experiências profissionais, mestrado, doutorado, projetos de pesquisa, docência e palestras. Na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), integrou um grupo de pesquisa que desenvolveu a primeira tese relacionada à internet das coisas.  


Já em 2004, entrou para a primeira rede de pesquisadores brasileiros em Microeletrônica e em 2007, teve o filho Don, hoje com 12 anos. Aylon morou em Londrina enquanto lecionou na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e por levar seu filho em todos as missões internacionais, aos seis anos de vida ele já havia viajado por 35 países. A cientista também realizou seu terceiro sonho de ter um Kombi vermelha e não à toa, é conhecida em Cianorte como a “cientista da Kombi”.  


A cientista da Kombi vermelha de Cianorte
Acervo pessoal
 




UNIVERSO FEMINO

Transitar em um meio habitualmente formado por homens, como é o caso da Microeletrônica, fez com que Aylon absorvesse ainda mais a importância de se ter modelos.  Ela diz que há poucas meninas na área de STEM (Science, Tecnology, Engineering and Mathematics) e são raras as mulheres que conseguem crescer na carreira, na área de microeletrônica, computação.  


“Cada vez que faço uma palestra e uma menina me diz que foi importante ou se sentiu motivada, para mim significa receber um prêmio. As mulheres têm que se mostrar. Na nossa sociedade, os nossos defeitos sempre são evidenciados e ter uma vulnerabilidade à mostra é muito difícil para o universo feminino. Isso faz com que muitas recuem. Não tem nada a ver com vitimismo ou melindre. Não é a situação perfeita que vai gerar a carreira ou sucesso, mas o que você fizer com seu esforço”, conclui.   


Atualmente, Aylon trabalha no desenvolvimento de equipamentos de desinfecção do vírus Sars-CoV-2 na UEM. À frente da SBMicro, a cientista pretende alavancar o sistema de startup de hardwares, criando novas oportunidades, além de intensificar a participação da microeletrônica nas estratégias políticas e fomentar a articulação com setores produtivos.  




Para o futuro, ela deseja um reconhecimento do poder público e da sociedade em geral para os cientistas. “É deles (cientistas) que estamos esperando uma vacina. O governo tem que entender de uma vez por todas o valor da Ciência e nós pesquisadores precisamos no mostrar mais”, pontua. 

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