Juliana Fontanella
Londrina é diferente dentro de um ônibus, não importa quanto tempo se viaje nele ou quem anda de lotação, busão ou busanga, como diz a garotada. Conhece-se no ônibus a gente da cidade. São sempre as mesmas pessoas com quem se conversa. Ou com quem se viaja, lado a lado, muitas vezes sem uma troca de palavras. São os companheiras da viagem cotidiana. É uma invasão de privacidade velada morar por décadas no mesmo lugar e dividir os fatos da vida com estranhos. Enquanto o ônibus se move lentamente para sair do Terminal Urbano, retorno a um passado que só aconteceu ali.
Dentro desse mundo que vibra junto com o motor cujo som é tão familiar, ainda estão a professora de história que carregava mapas e livros demais, a moça vaidosa que sonhava em ser modelo, o pessoal que estudava inglês no centro da cidade e os alunos da escola de datilografia. Agora, fica mais fácil entender o saudosismo dos poetas pelos bondinhos.
O tempo pára e, de repente, posso me lembrar dos assentos acolchoados de cor alaranjada, do motorista que varria o interior do veículo a cada parada, da garrafa térmica de café que ia embaixo do banco e daquelas marteladinhas nos pneus que prenunciavam a saída do ônibus. Enquanto o motor aquecia, a meninada não vacilava em pedir ao tio que acelerasse o trajeto por causa do Sítio do Pica-pau Amarelo.
Eram dois parceiros, o motorista e o cobrador, passavam muitos anos na mesma linha e conheciam bem cada um de nós. Eram eles que consolavam o pessoal que ia levar bronca no colégio por ter perdido o ônibus e não assistido a primeira aula. O motorista era o tio, era um amigo. Era ele que ganhava metade do chocolate ou um punhado de balas quando deixava, mesmo que só um pouco, a meninada andar sentada na caixa do motor. Naquele tempo, os tios do ônibus esperavam uns minutos quando o colégio demorava para liberar a gente e depois ganhavam um milhão de ‘brigado tio, vai com Deus’ da garotada. Quase posso ouvir a voz grave do ‘tio Japonês’: ‘‘Segura firme que hoje o tio tá com pressa’’. Mas era só por falar, porque eles nunca corriam como hoje.
A paisagem de dentro do ônibus mudou com a cidade. Acho graça o motorista ficar sem jeito quando alguém diz ‘boa tarde ou muito obrigado!’ Costume estranho, deve pensar ele. Não nego que é irritante ver a criançada sentada e os adultos em pé, mas coitado do cobrador se ele resolver interferir...
Os homens já não se levantam para dar lugar para as mulheres, mas alguns seres solidários ainda perguntam se alguém precisa de ajuda com uma sacola ou um pacote.
Agora, alguns ônibus têm até ar condicionado e música, estão sempre no horário e os motoristas não podem mais se dar ao luxo de ficar olhando em volta. De dentro da linha 308 (Bandeirantes), vejo um senhor grisalho, de idade avançada, caminhando lentamente. É o ‘tio japonês’, que saudades! Nem sei se ele lembraria daquelas velhas brincadeiras. A linha Orion que ele fazia nem existe mais. Tentei, mas não consegui recordar seu nome, mas isso não importa tanto.
Estamos quase chegando no bairro e percebo que já existe outro mundo dentro do ônibus, nem todo mundo se conhece e as pessoas estão sempre de cara fechada. Mas ainda vejo um e outro esboçando um sorriso meio tímido em meio a bolsas, pastas e mochilas. Um celular toca, várias pessoas conferem seus telefones. Alguém atende.
Que distração, perco uma parte da paquera: uma garota desce em frente à praça e olha para trás, o garoto continua, mas ainda sorri. Uma senhora entra apressada com dois meninos, cedo meu lugar sem prestar muita atenção. Ela me olha e então me lembro de uma menina que estudou inglês no centro da cidade e sempre ia para aula na mesma hora que eu. Sorrio de volta. A gente se conhece.
Em meio aquela multidão de estranhos, uma moça alta cumprimenta uma amiga. Nós fizemos a Primeira Comunhão juntas, a igrejinha não existe mais e o padre mudou de bairro. Ela me vê e vem em minha direção. Sei que trabalha numa papelaria perto do Terminal, nós conversamos um pouco: ‘‘Você ainda mora no mesmo lugar? Está trabalhando?’’ Tenho que descer agora, mas antes digo a ela: ‘‘A gente se vê!’’ Na saída encontro um vizinho, ele não costuma andar de ônibus, o carro quebrou. Sinto que alguém invade meu mundo. Conosco descem a mulher e os meninos, ela sobe a rua, nós descemos. Mas não importa, o reencontro é só uma questão de horário.

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