A cidadania expressa em letras
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sábado, 05 de dezembro de 2009
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Caroline Mendes Wolf, 11 anos, adora escrever. Em casa, mantém um diário e uma agenda, onde costuma anotar seus pensamentos toda noite, antes de dormir. No colégio, ela se dedicou a um projeto elaborado pela professora de Português, no qual alunos da quinta série da Escola Estadual Fernando de Barros Pinto, no Conjunto Violin, Zona Norte de Londrina, aprenderam a elaborar cartas de reclamação.
As correspondências são resultado do Projeto Cidadania, criado pela professora Eliana Merlin Deganutti de Barros, doutoranda do Programa de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL), em parceria com a professora de língua portuguesa da escola estadual Michele Cristina Cordeiro.
Alunos de duas turmas de quinta série participaram de oficinas às quintas e sextas-feiras durante o último semestre, nas quais praticaram a linguagem autêntica, elencando problemas do bairro, da escola e da cidade em forma de cartas.
''Elas tinham um objetivo real e conseguiram aplicar a teoria da língua portuguesa na prática, especialmente num contexto diferenciado, numa realidade bem brasileira, de alunos com dificuldade de aprendizado'', descreveu Eliana, lembrando que os estudantes estavam acostumados a escrever a partir de temas ou usando textos de apoio. ''Nunca tinham escrito num contexto de interlocução, sabendo para quem e por que escreviam'', completou.
O projeto virou até blog, onde a professora postou textos sobre cidadania, fotos da turma e perguntas para debates, incentivando o poder de argumentação dos alunos.
Segundo Eliana, a maioria dos temas abordados nas cartas estão relacionados ao bairro, como ruas esburacadas, falta de médico nos posto de saúde, demora nas consultas, mato alto, ônibus lotados, pichação e falta de detergente e álcool em gel na escola, além dos casos de violência.
Para Michele Cordeiro, as oficinas trouxeram muitas mudanças nas aulas: ''Eles aprenderam como argumentar e a usar os elementos articuladores das frases, como o 'mas' e o 'portanto''', citou a professora de português, contando que os alunos foram avaliados em três etapas até concluírem as cartas: eles primeiro descreveram o problema, depois argumentaram e no final redigiram as cartas no computador.
''Foi a primeira vez que muitos deles tiveram acesso a um computador e a primeira vez que todos usaram a sala de informática da escola'', comentou Eliana de Barros, assinalando que a digitação das cartas foi o primeiro passo para o letramento digital do alunos.
''Eles internalizaram o conhecimento no dia a dia, com atividades reais, tomando cuidado com o que iriam dizer nas cartas, principalmente as que foram endereçadas ao Prefeito'', concluiu.
Para a aluna Caroline Wolf, que reclamou sobre o cancelamento das aulas de espanhol na Escola Fernando de Barros Pinto, a experiência foi um pouco difícil, ''principalmente achar palavras para falar formalmente'', confessou. ''Eu só tinha escrito carta para amigo, que pode ser informal. Mesmo diferente, achei legal participar do projeto'', completou Caroline.
Ana Claudia Ribeiro Matiolli Longui, 11, também teve dificuldades para argumentar no começo, mas gostou de elaborar cartas de reclamação. Ela reivindicou mais policiamento no bairro. ''A gente passa na rua e vê gente sendo assaltada'', justificou a estudante, que não tem o hábito de escrever.


