A tarde de sábado estava quente, e Tião resolveu atender aos apelos da mulher, que havia encasquetado de visitar o antigo endereço da família, no centro da cidade. Há dias Margarete pedia para o marido que a levasse de motocicleta à casa de madeira situada ali nas imediações na Avenida Bandeirantes.
Era um imóvel pequeno e antigo, mas cheio de charme. Havia sido alugado pelo casal há exatamente um ano e dois meses, por insistência dela, que tinha arrumado um emprego de secretária numa clínica médica e não queria mais depender de ônibus ou do marido para levá-la ao trabalho. Foi um achado na época. Ela nem acreditava.
O casal habitou o endereço durante 12 meses. A casa foi assaltada umas duas vezes, é verdade, mas nada que não compensasse o belo pomar que tinham à disposição no grande quintal. Até bananada ela chegou a fazer com as dúzias e dúzias de frutos que amadureciam bem ali, na porta da cozinha. O filho único do casal não queria outra vida. Passava as tardes brincando no balanço armado na grande jabuticabeira.
Era pouco antes das quatro da tarde quando Tião estacionou a moto CG em frente à casa. Ou melhor, ao que havia sobrado dela. Estupefados, homem e mulher ficaram um tempo sem esboçar reação. À sua frente, em vez do pequeno jardim, que nesta época deveria estar tomado pelas margaridas semeadas por Margarete, havia um monte de entulhos. Dias antes, a casa havia sido demolida, provavelmente para dar lugar a um prédio comercial.
A secretária, ainda boquiaberta, fez ao marido a indagação óbvia: ''O que aconteceu com nossa casa, Tião?''
Ele, já recomposto: ''Não tá vendo Margô? Teve o mesmo destino da casa da dona Lola, no ano passado. Lembra? Olha lá, o prédio está quase pronto.''
Ele referia-se ao caso de uma viúva de cabelos branquinhos e cheia de netos, que sucumbira à pressão de uma grande construtora e vendera a residência de mais de 40 anos. Quase todos os vizinhos presenciaram as lágrimas da mulher, que em troca receberia algumas salas no novo edifício.
Caminhando entre as paredes demolidas, Margarete ia juntando lembranças. Das bananeiras, jabuticabeiras e pessegueiros, só haviam sobrado os galhos. Ela olhou ao redor, e percebeu que outras duas casas da região haviam tido o mesmo destino. Foi quando, num estalo, lembrou do jardim, alvo de tantos cuidados. Correu até lá e viu que algumas mudas de margarida haviam sobrevivido. Pegou umas três ou quatro, para tentar replantar.
O casal ainda ficou por ali um tempo, meio que anestesiado. Tião fez alguns cometários na tentativa de consolar a mulher, dizendo coisas como ''é o progresso'', ''estas casas velhas têm que dar lugar aos prédios modernos'' e outras coisas. Mas Margarete, ainda que sem muita leitura, sabia da importância de preservar algumas construções, principalmente quando elas traduzem as tendências de uma época. Resignou-se, para logo depois, enquanto sentava na garupa da moto, ser tomada novamente pela revolta. ''Isso é um crime contra a história da cidade!''

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