A cara da pobreza fica ainda mais feia no frio
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sexta-feira, 19 de maio de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Para muita gente, a aversão ao frio é questão de gosto; para os pobres, é questão de sobrevivência. Já começou a época do ano em que as meias furadas, as inúmeras frestras nas paredes, a falta de gás de cozinha para fazer uma sopa quente e outras tantas privações tornam a miséria ainda mais difícil de suportar. Para piorar, os meteorologistas prevêem a chegada de um inverno mais rigoroso que o de 2005.
Na tentativa de amenizar o impacto das baixas temperaturas na vida de famílias de baixa renda, começa hoje mais uma Campanha do Agasalho. A expectativa do Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar) é pelo menos repetir a arrecadação do ano passado, que fechou com mais de 5 mil cobertores e 50 mil agasalhos. Além de contar com a boa vontade do cidadão que têm peças sem uso esquecidas no fundo do armário, os organizadores irão apelar para empresas e clubes de serviços.
Mas a ajuda ainda está distante de famílias como a de Nair Alves de Barros, 47 anos. Morando há apenas três meses no Jardim Monte Cristo (Zona Leste de Londrina), ela teme o ar gelado que entrará pelas tantas brechas de seu barraco quando o inverno se aproximar. ''O agasalho que a gente tem é pouco, e acaba passando frio, né? Seria bom ter uma blusinha melhor pro meu menino (de 11 anos), que sai de manhã pro reforço escolar'', diz a dona-de-casa, que saiu com a família de Santa Cecília do Pavão (60 km ao sul de Cornélio Procópio) ''porque faltou serviço''.
Na casa do catador de papel Itacir Clementino Gomes, 51 anos, o frio aumenta na medida em que a família cresce. A chegada de mais uma neta, há 11 meses, tornou ainda mais apertada a divisão dos poucos cobertores disponíveis. ''O jeito é dividir. O que a gente ganha mal dá pra pagar água, luz e comida, que dirá roupa e coberta'', resigna-se.
A vizinha Lúcia Aparecida, 43 anos, reclama que ''quando fica sabendo da Campanha do Agasalho, ela já acabou''. ''No ano passado tentei conseguir alguma peça para mim, mas acabei doando um cobertor a uma vizinha que perdeu a casa num incêndio'', conta. Um bom exemplo de quem abre mão do pouco que tem, para ajudar quem tem menos ainda.
A diretora do Provopar, Lenir Cândida Assis, explica que a campanha aproveita a lista de cadastrados em programas de transferência de renda do município para direcionar as doações. ''Hoje uma grande parte da população que precisa de agasalhos já está cadastrada. Se houver alguma família que não recebe benefícios do governo, mas está passando frio, ela pode procurar o Cras (Centro Regional de Assistência Social) mais próximo'', recomenda.
A Campanha do Agasalho 2006 será lançada hoje, às 10 horas, no Calçadão de Londrina. Cerca de 100 postos de coleta devem ser montados em toda a cidade. O Provopar também pretende ampliar o número de voluntários para trabalhar em eventos, seleção de mercadorias, arrecadação e entrega. O telefone do programa é (43)3324-2397.


