Todos os dias, Samara Cássia Cardoso tem a missão de descascar e picar frutas para alimentar 100 aves silvestres, que no momento não têm condições de voltar ao habitat natural. Ela também é responsável pela limpeza dos viveiros, troca da água e ração.
A convivência com as aves, além de um aprendizado, criou um vínculo afetivo de amizade. Para os ''mais íntimos'', Samara deu nomes carinhosos, mas até com ''os mais reservados'' ela não dispensa uma conversa durante os afazeres. ''Quando entro no viveiro, eles vêm para perto. Alguns até querem que eu os pegue'', comenta a tratadora, que também já sabe a fruta preferida de cada um. O consumo atinge, em média, 300 quilos de frutas por mês e 60 quilos de grãos e sementes.
Samara mora em Mauá da Serra (Norte), a poucos metros do trabalho, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Monte Sinai, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). ''Temos uma parceria com a 2 Companhia Ambiental de Londrina e a Força Verde da região, que nos encaminham as aves apreendidas. É feita uma triagem pela veterinária, um acompanhamento diário durante a quarentena e depois, um trabalho de reabilitação para que eles possam retornar ao habitat natural'', explica Willian Luiz da Cunha, biólogo.
De acordo com Willian, atualmente cerca de 12 espécies são atendidas no local e uma média de 10 a 15 pássaros são encaminhados semanalmente pela Polícia Ambiental de Londrina. ''Apesar do viveiro abrigar araras, bico-de-pimenta e tucanos, o maior índice de apreensão é de papagaios e pássaros trinca-ferro. São aves que encantam as pessoas pelo canto e pela fala e por isso, muitos os querem na gaiola ou para a prática de comércio'', afirma.
A Fazenda Monte Sinai pertence ao advogado aposentado Julio César Christóffoli e foi constituído em 2009. ''Como Oscip, recebemos metade do ICMS ecológico que é destinado à prefeitura local. Sempre quis transformar essa propriedade em uma área de preservação e o trabalho com animais foi uma consequência'', revela.
De acordo com Mario Luna, analista ambiental do núcleo de fauna do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) do Paraná, o Instituto Monte Sinai se encontra em fase de nova avaliação do projeto técnico, pois foi preciso ''sofrer complementações em observância às normas vigentes, em especial a Instrução Normativa IBAMA 169/2008, que se refere aos requisitos necessários para autorização de uso e manejo para a categoria pretendida pelo Instituto, como o de Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas)''.
Atualmente, o Paraná conta com o Cetas de Tijucas do Sul (SC), sete zoológicos, cerca de 30 criadores comerciais e 30 mantenedores de fauna silvestre.
Reabilitação
O trabalho de reabilitação das aves consiste no processo de coordenação de voo e readaptação. Isso explica os comedouros externos espalhados pelo local. Segundo o biólogo Willian, as aves que são reintroduzidas ao meio, costumam voltar para se alimentar até que um dia não retornam mais.
''Cerca de 40% a 50% do total de animais que temos hoje, têm condições de voltar à natureza, mas o restante não conseguirá devido aos maus tratos. São aves que tiveram as asas cortadas e que não se regeneram, como é o caso das araras ou então, daquelas que tiveram a muscultura de voo atrofiada devido ao tempo de permanência em gaiolas'', ressalta Willian, acrescentando que nesses casos, os animais são encaminhados para criadores comerciais que possuem autorização do Ibama.
As espécies que não pertecem a esse bioma, como é o caso das araras e tucanos, o encaminhamento é para os criadores da região de Mato Grosso (MT) e Mato Grosso do Sul (MS).
Porém, há de se considerar também que muitos animais que chegam no Instituto, não resistem e morrem. Segundo o biólogo, esse índice chega a 20%. ''São aqueles que já chegaram bem debilitados, com um nível de estresse muito alto e até mutilações'', diz.
Como é o caso dos araçaris, que pertencem à família dos tucanos e estão há dois meses em Mauá da Serra. Eles foram apreendidos em Londrina com sinais graves de maus-tratos e não poderão mais voar. ''Bom seria se todo mundo tivesse comoção pelas aves. Elas são bonitas, mas na natureza e não presas em uma gaiola'', declara.

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