A cadeia de responsabilidades do lixo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de agosto de 2011
Micaela Orikasa <br> Reportagem local 
Quando chega a hora de descartar aquele lixo que não se enquadra como reciclável e nem orgânico, no dia a dia, resta a dúvida: o que fazer? Em muitos casos, aparelhos eletrônicos e lixos tóxicos como pilhas e lâmpadas vão parar junto ao orgânico ou, então, ficam acumulados nos quintais de casa porque as pessoas simplesmente não sabem para onde levá-los.
Uma alternativa têm sido as campanhas promovidas pela sociedade civil organizada, empresas e ONGs, que montam postos de coleta para quem quer descartar esse tipo de resíduo, sem peso na consciência.
O fisioterapeuta Alysson Carlos Agostini, de 29 anos, diz que sempre fica de olho neste tipo de ação. ''Fico acumulando esses produtos em casa, pois sei que não devo descartá-los no lixo comum. As campanhas que nos propõem um local de descarte correto são muito oportunas'', diz ele, que aproveitou a ação ''Descarte Consciente'', da Rede de Farmácias Vale Verde, para se desfazer de um aparelho de celular e de uma máquina fotográfica quebrada.
Por meio de coletores instalados em duas unidades em Londrina, a população pode descartar Produtos como geladeira, ar-condicionado e pilhas não serão recolhidos. A meta da campanha é receber uma tonelada de remédios e quatro mil lâmpadas, em dois meses.
A ONG E-Lixo, parceira nesta ação, vem desde 2008 oferecendo uma solução para o descarte de eletroeletrônicos e eletrodomésticos. Mensalmente, a entidade recebe na sede, localizada na Vila Portuguesa (centro), cerca de 40 toneladas de lixo, sendo 90% computadores e periféricos. ''No início, recolhíamos cinco toneladas ao mês. Em três anos, esse número subiu consideravelmente e a tendência é aumentar cada vez mais'', diz Alex Gonçalves, presidente da E-Lixo.
O reaproveitamento dos materiais são direcionados para projetos sociais, quando é possível reutilizá-los, ou para a comercialização das peças, o que garante o sustento da entidade. ''O que vira sucata é enviado para indústrias de diversas localidades, inclusive para o exterior'', comenta.
Entre os produtos que chegam à ONG também são comuns pilhas, geladeiras, ar-condicionados e televisores, mas Gonçalves alerta: ''Não podemos receber este tipo de lixo, pois eles têm uma legislação específica. Porém, muitas pessoas alegam não saber onde descartar''.
Outro exemplo é dado pela Sercomtel, que desde 2004 recolhe baterias de celular. Por meio de coletores espalhados em vários pontos de Londrina, como no Terminal Rodoviário, já foi possível evitar que mais de 72 mil baterias fossem para o meio ambiente. Aparelhos em desuso ainda são recolhidos na sede da empresa (Rua João Cândido, 555).
Os condomínios verticais e horizontais também têm mostrado preocupação com os resíduos, ao realizar a separação dos mesmos. ''Os condomínios têm um papel importante nessa prática. Mas na verdade, todos aqueles que recolhem esses resíduos e dão a destinação correta a eles estão apenas cumprindo a lei'', afirma Fernando de Barros, engenheiro civil, perito judicial ambiental e mestre em engenharia de edificação e saneamento.
Logística reversa
No ano passado, foi regulamentada a nova Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305) que responsabiliza os fabricantes, comerciantes e consumidores pela destinação adequada dos resíduos. A lei esclarece que quem gera o resíduo é responsável por sua destinação adequada. É o processo da logística reversa.
Porém, na prática, isso ainda não é uma realidade no País, com exceção de algumas iniciativas. Falta conscientização por parte dos consumidores, comerciantes e fabricantes, além do comprometimento do poder público em propor medidas legais com agilidade e eficiência.
''No início sempre há uma reação, mas quando essa cadeia começar a funcionar efetivamente, poderá gerar lucro para a indústria. Hoje, tudo que é resíduo tem um valor econômico agregado e aos poucos, vão surgindo grupos e empresas interessados naquele material. Essa logística reversa é muito importante. O consumidor deve exercer seu direito e todo mundo tem que forçar essa ação'', ressalta Barros.
Segundo o engenheiro, grupos setoriais criados pela lei estão negociando com o governo para buscar soluções para lâmpadas, pilhas e eletroeletrônicos. Em um futuro próximo, Barros acredita que as indústrias terão associações ou representantes nas cidades, que estarão aptos a receber estes produtos diretamente do comércio e dos próprios consumidores e reciclá-los.


