Walter Ogama
De Londrina
O Bar Potiguar II deixou de mostrar pelas suas duas portas os velhos balcões e seus tradicionais clientes debruçados sobre eles. Ninguém na vizinhança sabe se os proprietários cansaram da atividade ou instalaram o estabelecimento em outro prédio. Também não há informações se os clientes – aqueles mesmos de sempre, que não se importavam com o encardido da madeira dos móveis do lugar – deixaram de representar lucro para o negócio.
O Potiguar II, tampouco, era um estabelecimento tradicional e de nome. Mas era um bar que agora tem as suas duas portas de folhas fechadas e, mais do que isso, contribui para aumentar a preocupação dos pequenos comerciantes que analisam a crise pela quantidade de salões comerciais desocupados. Instalado em uma rua quase que exclusivamente comercial, a Quintino Bocaiúva, na região central de Londrina, o estabelecimento não é o único daquela via a estar fechado.
Cerca de vinte passos à frente, um concorrente também saiu do mercado e desocupou o salão onde funcionava. A placa de uma empresa imobiliária apela para alguém interessado: ‘‘Abram as portas deste lugar onde funcionou até bem pouco tempo o Bar e Lanchonete Horizonte’’. Também não se tem notícia do que ocorreu com os proprietários. Numa rua de comércio intenso, onde o abre e fecha das portas dos prédios são frequentes, vizinho raramente fica sabendo ‘‘o que aconteceu com fulano’’.
Mas a casa lotérica e lanchonete resiste, escancarando nas suas duas portas abertas cartazes promocionais. Ali funciona de tudo, compra-se de bilhetes de loterias a sanduiches. Os proprietários também anunciam fotocópias, compra e venda de passes e a sorte grande, que pode aparecer numa aposta.
Os cartazes promocionais, se por um lado enfeiam o estabelecimento da Quintino, por outro parecem um desafio para o escuro e abandonado prédio onde funcionou a Delegacia da Polícia Federal em Londrina. Fechado, o imenso prédio ostenta a faixa anunciando que o local está à venda. Existe algum interessado?
Até que poderia ser mais fácil negociar o imóvel, se os tempos fossem outros. Com o dólar subindo e Fernando Henrique Cardoso caindo nas pesquisas, os negócios empacam e mais portas comerciais fecham. Na mesma Quintino Bocaiúva, uma retificadora de motores avisa: mudança de endereço. Os vários postos de combustíveis abastecem carros que de quando em quando encostam. Os dois grandes supermercados, com seus estacionamentos próprios, são onde a crise parece fazer um desvio, conforme se observa pelo entra e sai de consumidores.
Não é o que ocorria, provavelmente, na loja de materiais esportivos pouco adiante. Prédio desocupado, portas fechadas, um vazio é o que se vê no local. Impressão que se repete outros 100 passos além, no ponto onde, no passado, um bar fez fama e teve fregueses de carteirinha: o Mocidade, que agora funciona em outra localidade. Depois do bar o prédio abrigou um supermercado, também conhecido na Quintino, o Garça.
O estabelecimento, na esquina da Rua Fernando de Noronha com a Rua Belo Horizonte, mas somente a um pulo da Quintino, sofreu nova mudança de proprietário, resistiu ainda como uma espécie de mercadinho e agora não tem à mostras as poucas mercadorias que podiam ser vistas por quem passava pela frente.
Silêncio igual caracteriza o imenso prédio que sediou, por muitos anos, uma tradicional loja de departamentos do Paraná. Instalado na beira da encruzilhada formada pelas ruas Quintino Bocaiúva, Benjamin Constant e Paraíba, a edificação sedia, eventualmente, feiras de confecções, por exemplo.
Nas proximidades, um prédio de três portas pede um locador. Na frente, no outro lado da rua, outro prédio, de duas portas, pede um comprador. No quarteirão seguinte, o bar que era comandado pelas duas senhoras japonesas está fechado. Ao lado funciona uma loja de conserto de sapatos. Também está com a porta fechada. E a relojoaria, que ocupava outra porta, também não está mais no local.
Ali, onde a Quintino Bocaiúva começa com um hotel de categoria, outras duas portas estão cerradas. Ultimamente uma loja de confecções tentava atrair consumidores.
A crise das portas fechadas, infelizmente, não é uma característica apenas da Quintino. A casa construída em estilo nobre, na esquina da Rua Sergipe com a Avenida Higienópolis, já foi restaurante, depois virou sorveteria e agora, nas noites de frio, abriga andarilhos que se protegem do sereno em sua varanda. A Sergipe tem outros sintomas de tempos ruins. Como as duas lojas de confecções e uma relojoaria que deixaram de existir.
Outros três quarteirões da Avenida Duque de Caxias mostram oito prédios com as portas fechadas. Na Avenida Celso Garcia Cid, quem sobe na direção da rotatória abaixo da Catedral Metropolitana de Londrina se depara com 9 prédios desocupados em um trecho de três quarteirões.
Já no centro da cidade, as poucas conversas na fila de uma agência bancária, às 10h50, 10 minutos antes da abertura do estabelecimento, não é sobre a crise e nem sobe a popularidade em baixa do presidente Fernando Henrique Cardoso. Duas senhoras comentam sobre o comportamento de uma colega de trabalho, sem se importarem com as pessoas atrás e na frente. Os outros fazem silêncio, com olhares distantes, como se nada ouvissem.
Algumas centenas de passos adiante, nas imediações do Terminal Urbano, o menino vende cigarros trazidos do Paraguai, ao lado de uma senhora que também vende cigarros contrabandeados, que por sua vez ocupa uma fatia da calçada à frente do rapaz que mistura em seu balcão improvisado cigarros e CDs piratas. O pipoqueiro, além de pipoca, também compra e vende passes de ônibus. O ambulante oferece agulhas para limpar boca de fogão e no bar adiante, pode-se comprar doce-de-leite, saquinho de amendoim, cigarro do Paraguai e passe de ônibus. Tudo em evidência, no País que, através de uma pesquisa, tenta alertar o seu presidente: ‘‘Hora de ação, senhor!’’

mockup