Viver em um país burocrático não é tarefa fácil. Não adianta nascer e não ganhar uma certidão, por exemplo, senão você simplesmente não existirá - pelo menos não oficialmente. Depois, para se matricular nas escolas estaduais (ensino fundamental e médio), já é exigido o registro geral (RG), também conhecido como carteira de identidade. Neste caso, os londrinenses ainda precisam madrugar na fila para conseguir pegar uma das 40 vagas para fazer o documento.
Se a pessoa quer ter um emprego formal, precisa de uma carteira de trabalho. Não vota se não tiver o título de eleitor. Não pode dirigir sem a carteira nacional de habilitação (CNH). E não consegue muitos desses documentos se não apresentar o Cadastro de Pessoa Física.
Quer viajar para o exterior? Passaporte. Vai casar? Certidão. Neste caso, para as mulheres, não adotar o sobrenome do marido ainda livra a pessoa de ter que refazer todos os documentos que já tem. Assim, caso for divorciar-se, também só será necessário fazer a averbação da certidão de casamento.
E não basta apenas tirar os documentos. É preciso cuidar para que alguns não se percam nem deteriorem (se não, é necessária uma segunda via, que demanda mais fila, mais espera e mais dinheiro), enquanto outros exigem renovação periódica e mais burocracia. ''Se tivesse um único documento com várias informações, e que valesse pelos outros, facilitaria muito a nossa vida'', sugere o jogador de futebol Mario Neto.
Como não existe a obrigação de se renovar o RG, é possível passar dos 30 anos com cara de dez, pelo menos no documento. Ou seja, depois de tanta burocracia, muitas vezes a foto e a assinatura de uma criança é que são usados para identificar a pessoa depois de adulto. ''Fiz meu RG quando tinha 13 anos, carrego o tempo todo, e nunca tive problema. Só que mudei minha assinatura, então quando preciso assinar eu pergunto se tem que ser a do RG ou pode ser a outra'', relata a arquiteta Rebeka Dias Caetano. Ela conta que até pensou em fazer outra carteira de identidade, mas desistiu por causa da burocracia. ''Ia perder muito tempo'', explica.
Porém, essa burocracia toda, em um país onde não são poucos os casos de falsificação e estelionato, pode ser necessária. Aparecido Ribeiro é gerente de um supermercado onde é exigida a apresentação de RG, CPF, comprovante de residência e às vezes até de renda para que a pessoa possa se cadastrar e pagar com o cartão do estabelecimento. ''No Brasil de hoje é importante que haja tantos documentos, porque muitas vezes você não pode confiar só na palavra. Mesmo assim, por mais que se cuide, ainda se está sujeito a fraudes'', reconhece.
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