A boa vida no cemitério, doce cemitério
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de julho de 1998
Guilherme Vieira 
Você aceitaria um pedido de casamento se a proposta incluísse fixar o novo lar dentro de um cemitério? Elinda Seidler aceitou e diz estar muito feliz. Casada há quatro anos com o responsável pela capela do Cemitério Luterano de Curitiba, Gilson Bauer, Elinda vem residindo durante todo esse tempo dentro do terreno do cemitério com o marido e as enteadas Nilcete, 15 anos, e Nicole, 11 anos. Segundo Elinda, as pessoas costumam estranhar em um primeiro momento o endereço, mas essa primeira impressão se desfaz logo. Recebemos os amigos para jantar normalmente, e nunca ninguém estranhou o local, diz. Segundo Elinda, ao contrário de sentir medo de assombrações ou de espíritos, os amigos que frequentam a sua residência acabam adorando o local, pelo espaço e beleza. Segundo Elinda, durante as férias as garotas costumam receber os amigos da escola para passar a tarde brincando entre os túmulos. Muitas garotas vêm dormir aqui conosco e nunca nenhuma delas se importou com isso, conta Nicole.
Com o tempo, morar em um cemitério passou a ser tão normal para Elinda que ela acabou trabalhando também no atendimento aos usuários da capela. Ela conta que apenas uma vez teve que ajudar uma pessoa a se controlar por ter sentido medo de coisas do além. Uma senhora disse ter visto luzes e não saiu da capela durante toda a noite com medo de algum fantasma. Só às oito da manhã a mulher se acalmou e conseguiu sair, conta.
Para a família, morar no cemitério fica mais fácil por causa da formação religiosa - descendentes de alemães, seguem a religião luterana.Nós comemoramos aniversários dos nossos filhos com os amigos mas não costumamos dançar e colocar música alta, pois somos luteranos e a nossa conduta é mais contida.
A maior preocupação de Elinda é em relação aos vivos e não aos mortos, diz ela, ao se referir aos números da criminalidade que vem crescendo em Curitiba. Contamos com dois seguranças e dois cachorros, porque não sabemos o que pode surgir de trás de um túmulo. Elinda conta que antes dos seguranças serem contratados havia muitos vândalos e drogados no cemitério, que invadiam a área e acabavam destruindo os túmulos. Entretanto, esse ambiente de harmonia pode acabar no fim do ano, pois a administração do cemitério está pretendendo demolir a casa em que a família reside para ampliar o cemitério. Os Bauer devem se transferir para uma casa que estão construindo no bairro Santa Cândida, mas a contragosto. Se pudesse escolher ficaria pelo menos mais um ano na tranquilidade do cemitério, suspira Elinda, com uma ponta de tristeza na voz.Albari RosaLar, doce larA casa dos Bauer, responsáveis pela capela do cemitério, é como qualquer outra: ali eles vivem e recebem os amigosFamília que mora dentro do Cemitério Luterano, em Curitiba, não troca por nada a vida tranquila entre os túmulos
Minha maior
preocupação é com os
vivos, não com os
mortos, diz Elinda


