A Bíblia não fala do fim do mundo
O livro de Apocalipse costuma causar temor em leigos que leem a Bílblia. Devido ao cenário catastrófico descrito pelo apóstolo João, muitos acreditam que os textos se referem ao fim do mundo. Descrições de bestas com chifres saindo do mar, dragões, crianças sendo perseguidas e estrelas em chamas caindo do céu são fatos apontados por alguns religiosos como prenúncios do finitude da humanidade.
Entretanto, para estudiosos dos textos bíblicos todas essas referências não passam de figuras de linguagem. ''O livro do Apocalipse é complexo, bastante simbólico e não fala em nenhum momento do fim do mundo. Os textos escritos pelo apóstolo João falam da construção da igreja apostólica no mundo. Ele usava símbolos para poder contrapor o sistema imposto pelo Império Romano naquela época'', explica Leonir Nardi, que possui formação e Teologia e Filosofia e atua como docente e assessor do núcleo pastoral da Pontifícia Universidade Católica (PUC) em Londrina.
Segundo ele, entre os artifícios usados pelo apóstolo João estão cores, símbolos e números. ''Chifre naquela época representava poder. Então quando João fala de bestas saindo do mar com chifres, ele está se referindo ao poder bélico da Marinha do Império Romano chegando pelo mar para conquistar o mundo. João fala de um mulher vestida de sol tendo sob os pés a lua e sobre a cabeça 12 estrelas. Isso representa o nascimento da Igreja Católica e, por outro lado, o Império Romano tentando devorar aquela criança que estava nascendo'', explica.
Nardi esclarece que para chegar a esse tipo de conclusão, a teologia se baseia em pesquisas sobre o contexto em que o autor produziu o texto, a realidade social da época e a realidade social do autor. ''Tudo isso deve ser levado em conta para entender como os autores se referiam a fatos daquele período'', enfatiza.
O teólogo ressalta ainda que sob o aspecto teológico e filosófico, a concepção de finitude humana causa desconforto e por isso as pessoas buscam apoio espiritual e religioso para amenizar o sofrimento causado pela morte. ''O problema é que como a Bíblia tem inúmeras traduções, alguns líderes religiosos usam a teoria e o medo das pessoas para confundi-las e manipulá-las'', avalia Nardi. (M.R.)





