Ele começou no tempo do boticário, aquela pessoa que manipulava quase todos os remédios comercializados pelas farmácias a mais de 50 anos atrás. Os anos se passaram, a vida seguiu suas transformações, a aposentadoria chegou mas Luiz De Canini nem pensa em abandonar o ofício de vender medicamentos. Afinal, foi atrás do balcão da farmácia mais antiga de Mandaguari (Norte), onde dá expediente há cinco décadas, que ele conquistou o grande amor de sua vida, construiu uma bela família e espantou a concorrência ganhando a confiança de uma freguesia que lhe é fiel até hoje.
Leitor assíduo da FOLHA, Luiz conta que veio ao mundo em Quatá, em 1948, mas foi criado em Iepê, ambas localidades do interior paulista, junto com três irmãos. Ainda menino tentou seguir o caminho do pai marceneiro, mas logo viu que não levava jeito. Como era comum à época, estudou só até a quarta série e começou a trabalhar cedo. Aos 15 anos deu os primeiros passos naquela que seria a única profissão que teve: atendente de farmácia.
Ao completar a maioridade, Luiz mudou-se com os pais para Mandaguari. Desde logo, arrumou colocação na única farmácia da cidade, a Sul América, situada até hoje na Avenida Amazonas, no Centro da cidade. ''Comecei a trabalhar em 20 de novembro de 1960, lavando vidros usados para manipular medicamentos. Assim fui aprendendo'', recorda.
A esposa, a artesã Celina Roveron De Canini, 59, admite que já nesta época sentia algo pelo jovem balconista. ''Era jovem ainda e me lembro que uma vez descia a rua de mãos dadas com um namorado e vi que ele estava na porta na farmácia. Larguei rapidinho a mão do rapaz sem nem saber porque tinha feito aquilo. Depois que a gente se casou, entendi que era o destino'', revela, apaixonada.
Dividir o marido com a outra paixão dele não foi fácil. ''No começo tinha muita raiva. Quando tivemos nossos dois filhos (André, 36, e Adriana, 31), ele ia me visitar no hospital só na hora da visita e voltava ao trabalho. No nosso casamento foi a mesma coisa. A cerimônia estava marcada para as 10 horas e pouco antes ele foi aplicar insulina numa cliente e quase se atrasou.'' A dedicação em tempo integral ao ofício conferiu uma fama que se mantém até hoje. ''Não tem quem não conheça o Luiz da Farmácia. Ele tem mais respeito do que muito médico'', elogia a esposa. ''Hoje, tenho cliente que mora do lado de outra farmácia mas vem aqui para ser atendido por mim. Eles chegam com a receita e perguntam se o remédio está certo mesmo'', confirma Luiz.
Atento às mudanças provocadas pelo tempo, ele compara que as doenças e doentes de hoje são bem diferentes. ''Quando comecei, tratava quase que só diarréia, verminose, essas coisas. Agora, é tudo só dor'', fala. Outra mudança foi a concorrência, pois só em Mandaguari são 13 farmácias. Mas o dono atual da farmácia, o farmacêutico Elio Ribeiro Marques, diz que a clientela é muito fiel à Luiz, que está aposentado há 13 anos e mesmo assim dá expediente todo dia atrás do balcão.
E foi na farmácia também que Luiz descobriu outra grande paixão: a Folha de Londrina, que ele lê todo santo dia. E faz questão de recortar a seção CENA. Já tem cinco pastas. ''Faço o café da manhã espiando no quintal para ver quando o jornal chega. A FOLHA é tudo para mim''.

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