A bala perdida
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de fevereiro de 2002
Célia Baroni Reportagem Local 
Calmamente, ela subia a Rua Professor João Cândido, no centro de Londrina, empurrando uma idade que já marca os relógios dos avós. De repente, parou. Simples na roupa, no penteado liso de cabelos levemente grisalhos, era uma figura austera na seriedade da saia antiquada.
Entre exasperada e inquieta, remexeu atenta a bolsa. O olhar insatisfeito mostrava o fracasso da busca. De alças pretas, retangular, ela misteriosamente insistia em ocultar de sua senhora o que tanto procurava. Palavras mudas de imprecação passaram rapidamente por aquele olhar.
Enquanto a senhora se debatia com a bolsa, descia a rua uma jovem mãe e seu filho. Não tinha mais de três anos o menino. E como as crianças dessa idade, vinha puxado, entediado com o cansaço da caminhada.
Foi o acaso que fez o olhar exasperado da maior idade encontrar o brilho curioso dos olhos da menor idade. Mais casual ainda foi a mão experiente, que vasculhava a bolsa, encontrar algo tão conhecido e inesperado.
Não, não se tratava daquilo que ela procurava. E um instante de dúvida transpareceu no semblante da senhora. Mas talvez ... Apalpou mais uma vez o objeto em suas mãos. O movimento aconteceu sem pensar.
No momento exato, quando a criança e a mãe passaram no mesmo passo que a senhora passara, ela sacou a mão da bolsa apontando para o menino. A surpresa do movimento colheu a mãe desprevenida. A criança, não. O rosto se iluminou antes mesmo da mão se abrir e mostrar o que o guardava.
Embrulhada, inteira rosa, estava ela ali toda doce. Uma bala. Não perguntou a senhora ao menino se era do seu gosto. Sabedoria de quem viveu o mundo de quem sente. Nem quis saber o menino se era mesmo para ele. Sabedoria de quem vive só o que sente.
Durou poucos segundos o encontro. Ela retomou a caminhada sem achar o que procurava, mas um leve sorriso marcava seu rosto. Às suas costas, a mãe cuidadosa, surpresa com a gentileza inesperada, tira das mãos do menino a dádiva tão apreciada.
Na decisão, prevaleceram as lembranças da violência do ser humano. Drogas, assassinatos, atentados....Antrax. Tudo contra inocentes. Ações de pessoas aparentemente confiáveis. Justamente como aquela senhora. Melhor não arriscar.
Desolado, o menino fecha o semblante e se conforma com a perda. Afinal, o mundo é assim mesmo: injusto e descrente.
Enquanto isto, já no cruzamento da Rua Piauí a senhora faz uma nova parada. Desta vez rápida. Solícita e amorosa, ela ampara o esposo na travessia da rua. Estavam voltando do posto do INSS onde, mais uma vez, enfrentaram horas de espera e mais uma promessa de solução. Um leve suspiro e ela se conforma. Afinal, o mundo é assim mesmo .... injusto e descrente.


